
A Série Nordestes traz resenha de Onildo Correa (PPGSA/UFRJ) sobre o livro Só sei que foi assim: a trama do preconceito contra o povo do Nordeste, de Octávio Santiago, publicado em maio de 2025 pela editora Autêntica. Resultado de sua tese de doutorado na Universidade do Minho (Portugal), o livro traça um panorama histórico de como as complexidades da região – com sua diversidade de povos e culturas – foram convertidas, no imaginário nacional, a uma ficção homogeneizante. No lugar de Nordestes, no plural, como defende nossa série, um Nordeste monotemático, caricato, associado à miséria e ao rudimentar. Segundo Correa, o livro cumpre assim importante papel intelectual e político, efetivando-se como um manual de antipreconceito, embora também incorra em certos problemas que sua própria tese visa criticar. Vale a leitura para verificar quais!
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Boa leitura!
Resenha de Só sei que foi assim: a trama do preconceito contra o povo do Nordeste
Por Onildo Correa (PPGSA/IFCS/UFRJ)

Belchior não estava errado, o Nordeste é mesmo uma ficção. A cantora Juliana Linhares acrescentou sua linha: o Nordeste é uma “ficção científica” e também “emoção artística”, “invenção política”. A música que ressoa o presente clama igualmente por um basta. — Octávio Santiago.
A epígrafe acima – que, no livro de Octávio Santiago, aparece como epílogo – sintetiza bem o tom das 254 páginas de Só sei que foi assim: a trama do preconceito contra o povo do Nordeste, publicado em maio de 2025 pela editora Autêntica. Sua tese central é a de que o Nordeste vive sob a sombra de uma enorme ficção, cuja necessidade de superação faz-se urgente. Ou, melhor dizendo, boa parte desse “Nordeste” que circula em imaginários, conversas de botequim, novelas, livros, seria resultado de uma trama histórica construída paulatinamente por terceiros, à revelia das complexidades da região e de seus povos. Na prática, um projeto de outremização – logo, calcado em relações de poder – que vende ao mundo uma imagem repisada e unívoca daquilo que, em si, é completamente diverso.
Assim nos ensina Santiago: o plural tornado singular, distinções subsumidas a regras fixas, como se toda uma região pudesse caber estritamente nas parcas linhas de uma descrição naturalista. Sim, naturalista, como o próprio autor destaca, em que adjetivos se convertem em categorizações homogeneizantes.
Afinal, é difícil acreditar que uma região com 1.5 milhões de km², nove estados federativos, cada qual com histórias particulares de desenvolvimento, 54,6 milhões de habitantes culturalmente diversos, com sotaques e gastronomia próprias, possa ser toda ela posta sob um guarda-chuva totalizante chamado Nordeste. Fenômeno que nunca se aplicou ao “Sul”, diz o autor. Ou alguém faz crer que cariocas, capixabas, paulistas e mineiros são indistinguíveis, já que todos sudestinos? Sobre os nordestinos é que recai a pecha diminutiva e estereotipada de que, ao fim e ao cabo, são todos gente da mesma espécie.
Ora, mas como se deu essa construção monotemática? Como a complexidade da vida e das identidades nordestinas foi reduzida a nada além de um “Severino de Maria do finado Zacarias”? E quais as consequências práticas dessa ficção para os próprios nordestinos? Sobre essas perguntas, Santiago se debruça, declarando que o Nordeste não é, nem nunca foi, uma entidade homogênea. Para o autor, a “nordestinidade” acabou se revelando uma definição do “outro”, posta em dinâmica de subalternização, fruto do colonialismo. Uma espécie de arremedo, termômetro para medir a incidência de nordeste em uma pessoa. O que não precisa continuar dessa maneira. Daí sua defesa por um esforço revisional mais profundo rumo ao autoconhecimento dos próprios nordestinos. Tarefa ao qual o autor propõe contribuir.
O livro se divide então em sete capítulos, somados a uma apresentação e notas finais. Cada parte cumpre o objetivo de narrar a trama do preconceito contra o povo do Nordeste. Isto é, como este nasceu, foi naturalizado pelas artes, ciência e políticas públicas ao longo da história, e de que maneira vêm se expressando no contemporâneo. Os objetos utilizados na investigação foram diversos. Octávio Santiago passeia pela vasta historiografia do Brasil, documentos públicos, o pensamento social brasileiro, principalmente nas figuras de Euclides da Cunha e Gilberto Freyre, romances, filmes, pinturas, novelas e até programas jornalísticos, como o Fantástico, da Rede Globo. Além de ouvir 27 vozes dos nove estados da região, delineando como essas subjetividades experienciam suas nordestinidades e quais dilemas emergem de suas experiências individuais. Ou seja, no lugar de ser um livro que apenas reconhece o problema, é um que se esforça para explicá-lo através de sua historicidade e reverberações simbólicas e práticas, macro e micro antropológicas/sociológicas.
O autor, cuja doutoramento foi em Ciências da Comunicação pela Universidade de Minho, em Portugal, e cujo livro em questão é resultado de sua tese de doutorado, também não se restringe a uma ou outra abordagem teórico-metodológica. Se aproveita das variadas maneiras de se fazer ciências humanas, guiado predominantemente pelas necessidades do seu objeto de pesquisa. Por um lado, isso gera uma positiva interdisciplinaridade, que busca o entendimento do complexo através do próprio complexo em seu processo. Por outro – e, como sabemos, toda escolha resulta igualmente uma perda –, às vezes faz faltar um mergulho analítico mais aprofundado em questões cujo sobrevoo narrativo não dão conta de maneira satisfatória.
Assim, o primeiro capítulo, Já que sou, o jeito é ser, apresenta-nos o que o autor chama de “complexo de Macabéa”. A evocação é evidentemente da personagem de A hora é da estrela, romance de Clarice Lispector publicado em 1977. Macabéa, como tantos outros nordestinos, é uma migrante no Sudeste. E, exatamente como esses tantos outros, sofre do mal da irremediável inadequação. Ela olha para o mundo urbano do Rio de Janeiro, para a pensão em que vive, e não se reconhece, “desconhece a própria identidade, despida das camadas depositadas pelo outro sobre ela” (Santiago, 2025: 23). E aí reside o problema: numa existência de submissão e falta de autoconsciência, “Macabéa se curva diante da sociedade, aceitando passivamente o papel que lhe é atribuído” (Santiago, 2025: 24). Esse complexo, argumenta o autor, silencia vozes, distorce identidades e destrói autoestimas. Através dele, nordestinos se cristalizam numa imagem virtual projetada sobre seus corpos, o que, entre outras consequências, dificulta o enfrentamento de práticas discriminatórias, explicitas ou veladas. Isso porque, a inferiorização sistêmica é introjetada por esses sujeitos e alimentada cotidianamente até tornar-se identidade.
Como escreve Lispector:
A menina não se perguntava por que era sempre castigada mas nem tudo se precisa saber e não saber fazia parte importante da vida. […] Pois que a vida é assim: aperta o botão e a vida acende. Só que ela não sabia qual era o botão de acender (apud. Santiago, 2025: 27-28).
Ato 1 | Mão de obra e desigualdades, segundo capítulo do livro, inicia uma empreitada dividida em 5 atos, investigando as raízes da generalização sistêmica do povo nordestino em pequenas unidades semânticas, que repercute nas relações de poder e nas subjetividades. O autor começa pelo início do processo: de quando o Brasil se tornou colônia, de quando o Nordeste foi geograficamente inventado e da vitória econômica do “Sul”. O ponto principal do seu argumento é que o nordestino de então, vitimado pela desigualdade, teve de procurar novos lugares para se fixar, e “não por livre e espontânea vontade, mas por faltas de políticas públicas que dessem conta de uma crise jamais enfrentada antes” (Santiago, 2025: 63). A crise a que Santiago se refere foi a grande seca de 1877-79, retratada em pinturas e jornalisticamente romanceada por José do Patrocínio em seu Os retirantes; além da consequente escassez de mão de obra na economia do açúcar. Por detrás de todo um processo desesperado de migração estava a ineficiência do Estado, somado a um projeto eugênico de nação moderna. Justamente o que o Ato 2 | Racialização, vai abordar.
Aqui, o autor revisita a bibliografia sobre o tema do embranquecimento como política migratória, cujo apogeu ocorreu entre as últimas décadas do século XIX e primeiras do XX. Nesse cenário, a miscigenação empretecida era tida como uma das causas da falência nacional. E os migrante nordestinos, “sertanejos de raça inferior”, não escaparam dessa lástima. Associados à profunda miséria, a miscigenação excessiva e à condição de retirante (Santiago, 2025: 101) – um “Quasímodo”, como comparou Euclides da Cunha em Os Sertões – os nordestinos foram afundados numa inferiorização naturalista que não abria margem para a inclusão. A generalização virava regra.
Ato 3 | Monotematização: seca, fanatismo e violência e Ato 4 | Oposição e interesses, se complementam para aprofundar a discussão sobre o “Nordeste de uma só face”: região de seca, miséria e violência descontrolada. O autor não busca negar que tais elementos existiram na história do Nordeste, mas demonstrar como essas características (em sua maioria resultado da ineficiência do próprio Estado) se tornaram uma referência monotemática da região e alimento para discursos e empreitadas políticas de salvamento demagógico. O sertão verde de algumas das canções cantadas por Luiz Gonzaga, por exemplo, interessava muito menos do que a imagem do migrante rodeado por urubus. A passagem a seguir, com o incomodo de Rachel de Queiroz, sintetiza bem o fenômeno.
Essa exposição um tanto monotemática do Nordeste incomodou até mesmo Rachel de Queiroz, a ponto de levá-la a escrever, na edição de 17 de junho de 1988 do jornal O Estado de S. Paulo, que a região vivia “sob os olhos tortos da mídia. Ela destacou que parte dos veículos de imprensa se esforçava bastante para realizar uma “cobertura completa” do fenômeno da seca, para mostrar a terra esturricada e “o aspecto famélico da população”. Com esse intento, acrescenta Rachel, alguns repórteres chegavam a retirar das frentes das câmeras “qualquer pessoa mais gordinha” ou mesmo um “canteiro de coentros” cujo verde pudesse contrariar a narrativa em tela. (Santiago, 2025: 156)
E assim, Ato 5 | Estereótipos, mostra como todos esses elementos serviram de base para a construção de um “nordestino de folhetim”: “personagem com sotaque inventado, gestos e hábitos desmedidos que, em teoria, passam o recibo da sua origem e o tal filtro do atraso” (Santiago, 2025: 187). Santiago mostra que é comum vermos representações desse tipo, principalmente na teledramaturgia. Personagens envoltos em penúria e primitivismo, exultando uma síntese grotesca da região, preservando crenças, princípios e ideais de um status quo. São estereótipos como esse, diz o autor, que funcionam como “mapas” desenhados a partir de interesses específicos, que fez do nordestino, por exemplo, um “preguiçoso” aos olhos dos outros. Ou seja, generalizações abusivas que devem ser entendidas em sua dimensão política, servindo para legitimar arranjos sociais extremamente excludentes.
O último capítulo, Vivências e discriminação, como já adiantado, ouve 27 vozes dos diferentes estados do Nordeste. Temos aqui relatos dos mais variados sobre desvalorização e estratégias de sobrevivência. Como a do piauiense Elias, que diz ter adquirido uma caixa postal e um DDD de São Paulo – apesar de residir no Nordeste – para ganhar maior credibilidade e conquistar novos clientes em seu ofício remoto. Bem como, entre mais, relatos sobre a exotização recorrente da linguagem e do sotaque.
Esta sequência de capítulos, portanto, demonstra um esforço para apontar a suposta homogeneidade nordestina enquanto um longo projeto de poder. Uma vitória do “Sul” – representando a prosperidade – contra o “Norte” – encarnando a falência nacional. Tal dicotomia tem sido vista exaustivamente em discursos recentes da extrema direita, que indicam esse Nordeste de “Severinos de Maria do finado Zacarias” como um dos principais motivos para o atraso brasileiro — “Eles não sabem votar!”. Inclusive com panaceias separatistas aparecendo aqui e ali. É impossível não lembrar dos antigos discursos de purificação racial como solução para o entrave-Brasil, ou das contraposições do direito ao voto de mulheres e pobres que, juntos, compuseram um persistente vetor de força antidemocrática no país. Octavio Santiago indica que o preconceito contra nordestinos ainda é uma das pinceladas desse retrato.
Para o autor, contudo, superar essa relação de outremização não deve se dar apenas pela valorização dos méritos nordestinos, região que produziu um sem-fim de médicos, artistas, intelectuais, políticos etc. Pois, apenas valorizar não enfrentaria o problema central: a nordestinidade como uma ficção elaborada por outros. Seu ponto é, na verdade, que passemos a enxergar o nordeste sem os filtros dessa nordestinidade imposta; que seja interrompida a perpetuação de uma ordem social pouco democrática, movida por interesses e razões políticas alheias à multiplicidade da região. E é justamente nesse sentido que sua reconstituição histórica busca contribuir. Ou seja, como o autor conclui: “Mas até quando o povo do Nordeste permitirá que essas circunstâncias – e principalmente os outros – definam-nos completamente? Até quando seremos retirantes de nós mesmos?” (Santiago, 2025: 243). Nesses aspectos, Só sei que foi assim: a trama do preconceito contra o povo do Nordeste, cumpre importante papel intelectual e político, efetivando-se como um manual de antipreconceito.
Como não poderia deixar de mencionar, contudo, há alguns pontos no argumento de Santigo que merecem também ser problematizados. Como vimos, a bandeira erguida por seu livro está fincada no solo da tomada de autoconsciência por parte dos nordestinos e na posterior reivindicação de um lugar de fala, de uma autodefinição. Seria preciso, então, alimentar essa tomada em suas mentes, como através do desvelamento do processo histórico ao qual Santiago se propõem realizar. Me remete, de certa maneira, a posição de Lenin sobre consciência de classe, publicada em março de 1902. O russo atribuía aos intelectuais o papel de formar uma consciência ainda ausente no proletariado. Posição que Michel Foucault criticaria décadas depois, ao declarar que tal consciência já existia na prática e que a luta deveria ser de outra ordem…
Luta contra o poder, luta para fazê-lo aparecer e feri-lo onde é mais visível e mais insidioso. Luta não para a “tomada de consciência” (há muito tempo que a consciência como saber está adquirida pelas massas e que a consciência como sujeito está adquirida, está ocupada pela burguesia), mas para a destruição progressiva e a tomada do poder do lado de todos aqueles que lutam por ela, e não na retaguarda, para esclarecê-los. (Foucault: 1989: 71)
Ora, se a base do complexo de Macabéa está justamente na falta de autoconsciência, e se é por essa ausência que tantos nordestinos estariam ainda presos a uma identidade forjada por terceiros, então, segundo o autor, a superação dessa outridade por meio da tomada de consciência seria o principal caminho para enfrentar a subalternização. Longe de negar a importância dessa estratégia contra o preconceito, é preciso, contudo, observar que compreender o Nordeste como uma ficção não significa assumir que essa “fantasia” exerça peso determinante sobre as identidades nordestinas, como o livro sugere; mas, e nisso ele acerta, sobre o modo como os “de fora” tendem a enxergar o Nordeste de forma homogênea. O que falta aos nordestinos não é, portanto, autoconsciência. Assim como também não é isso que falta – ou faltava – à classe trabalhadora. Nesse sentido, a ênfase excessiva na superação da outridade por parte de Santiago, embora relevante, mostra-se insuficiente como solução para a subalternização. Isso porque, ao afirmar que os nordestinos devem assumir o protagonismo de sua própria definição – que devemos enxergá-los, e nos enxergar, sem os filtros da nordestinidade –, o autor parece incorrer em um problema semelhante ao de sua crítica: afinal, quem são, de fato, esses nordestinos que precisam reivindicar um lugar de fala? Estamos considerando dar a palavra a quem, e de que modo? Em sua tese, os dilemas e as complexidades internas da região acabam sobrepujados por uma dicotomia “Norte”-“Sul” que não dá conta da diversidade dos problemas de raça, gênero, classe, sexualidade e regionalismos presentes no bojo do próprio Nordeste.
No interior das complexidades dessa região, persistem desigualdades que exigem combates tão urgentes quanto a relação centro–periferia. Para muitos, os símbolos dessa nordestinidade, como o “chapéu de cangaceiro”, que Santiago sugere superar, expressam antes uma vitória interna de sobrevivência do que a caricatura de um suposto primitivismo. O orgulho por tais símbolos é, portanto, também necessário, pois habita uma relação de poder que não se vincula exclusivamente ao “Sul”, mas a uma dinâmica propriamente regional de combate ao preconceito e inferiorização produzidos de nordestinos para nordestinos. E digo isso não como negação ao livro de Octávio Santiago, e sim para me somar a essa luta por reivindicação pública democrática: que é tanto simbólica quanto material, tanto interna quanto externa às fronteiras reais ou inventadas dessa nossa multifacetada região. Aliás, o que significa exatamente esse “dentro” e “fora”? Parece-me fundamental, logo de princípio, colocar em xeque essa noção, para então reconhecermos a heterogeneidade não apenas das identidades, mas também dos problemas e das soluções.
Falar de – e viver em – sociedade é sempre tarefa persistentemente inacabada.
Referências
FOUCAULT, Michel. (1989). Microfísica do Poder. 8ª edição. Rio de Janeiro: Graal.
SANTIAGO, Octávio. (2025). Só sei que foi assim: a trama do preconceito contra o povo do Nordeste. São Paulo: Autêntica.
