
Em parceria com o INCT/CNPq Instituto Igualdade e Aprendizado Social, a BVPS inicia hoje a série Ensinar Pensamento Social, organizada por Arilda Arboleya (UFPI). A série se dedica a um tema que atravessa o campo do Pensamento Social Brasileiro sem receber a centralidade que merece nos debates: o seu lugar como componente curricular nos cursos de Ciências Sociais. Se a consolidação do campo já é reconhecida por sua presença em associações, grupos de pesquisa e periódicos, o mesmo não se pode dizer da dimensão do ensino, que segue pouco explorada diante de sua importância.
Na apresentação da série que publicamos hoje, partindo da constatação de que os dispositivos educacionais – currículos, ementas, programas de ensino – não são meros mecanismos formais, mas espaços de disputa em que se definem legitimidades, se distribuem poderes e se reproduzem (ou se contestam) formas de conhecer o social, Arilda Arboleya aponta os desafios que hoje interpelam o Pensamento Social Brasileiro nas salas de aula: as disputas em torno da diversificação do cânone, os apagamentos epistêmicos, as tensões entre permanência e obsolescência curricular.
Mobilizando perspectivas diversas, a série reunirá nas próximas quintas-feiras pesquisadoras e pesquisadores da história e do ensino das Ciências Sociais, das sociologias da educação, do currículo e do conhecimento, e do pensamento social contemporâneo, para debater as formas, os deslocamentos e os desafios dos dispositivos curriculares e formativos atuais.
Boa leitura!
Ensinar Pensamento Social: formas e deslocamentos
Por Arilda Arboleya (UFPI)
Ao apresentar sua provocativa tese sobre as linhagens intelectuais, Gildo Marçal Brandão (2005: 231) apontara que o campo do Pensamento Social no Brasil havia alcançado sua maturidade já nos anos 1990, sob o impacto da exponencial produção de pesquisas dedicadas a desvelar os repertórios explicativos da nação arquitetados pela intelectualidade precedente.
Importantes balanços críticos desenvolvidos desde a virada do século anotam que a consolidação deste campo – cuja caracterização emerge recorrentemente atrelada a um inescapável traço de interdisciplinaridade – é patenteada por sua estável presença nas principais associações e congressos científicos nacionais, por sua expressiva articulação em grupos e redes de pesquisa, por sua capilaridade em programas de pós-graduação que o nutrem com significativo volume de teses e dissertações, bem como por sua constância em periódicos científicos e coleções editoriais robustas[1].
Outra marca dessa consolidação é a sua participação na composição curricular de projetos pedagógicos dos cursos de graduação em Ciências Sociais do Brasil. Dadas as imbricações entre produção, circulação e normalização do conhecimento, a inscrição curricular como Pensamento Social Brasileiro ou nomenclaturas equivalentes é, a um só tempo, indicador do vigor do campo – na medida em que consagra sua legitimidade na matriz de conteúdos estabilizados – e recurso de sua sustentabilidade – na medida em que oportuniza a renovação de seus quadros ao oferecer às novas gerações o reconhecimento da tipicidade de seus temas, problemas e metodologias.
Porém, em que pese sua capital importância, essa dimensão do ensino tem alcançado menor atenção na ponderação dos ganhos, desafios e horizontes do campo. Buscando contribuir para o equilíbrio dessa balança, a proposta dessa produção é chamar a atenção para o pensamento social como componente curricular e estimular um debate acerca do lugar desse conhecimento no acervo das Ciências Sociais contemporâneas, das contribuições que ele oferece para a cognição da vida social, bem como para os múltiplos fatores e atravessamentos que o desafiam, direta ou indiretamente, num percurso ampliado de problematizações.
Esse exercício parece tanto mais imperativo na medida em que o avanço do processo de descentramento teórico e do desvelamento de epistemologias outras, associado ao avanço da diversificação do tecido social das instituições de ensino superior nacionais, tem provocado deslocamentos e colocado em questão o modelo formativo tradicionalmente provido pelas Ciências Sociais e seu estoque de conhecimentos mais estabilizados. Particularmente excitado pelo reconhecimento das dinâmicas de escalonamento social do conhecimento, bem problematizadas as sociologias do currículo[2], esse processo de revisão articula-se na desnaturalização das assimetrias entre os grupos sociais na validação dos saberes.
Assim, em que pesem as muitas críticas que cabem aos excessos revisionistas, tanto quanto aos defensores de uma impermeabilidade da tradição erudita, essa tensão formada na abertura teórico-epistemológica reativou a compreensão sociológica de que os dispositivos educacionais, as rotinas de ensino, os currículos importam solidamente para a intelecção dos processos de consagração de conhecimentos no panteão científico das humanidades, recolocando-os como recursos potentes da análise da circulação de ideias. Nessa senda, para além das bandeiras das visibilizações ou dos ressentimentos com a desestabilização do padrão de referência até então consolidado, compete tomar as molduras e refazendas dos processos formativos como subsídios para uma sociologia fina da relação reflexiva entre conhecimento social e a vida social, atentando-se para seus fatores indutores e para seus produtos.
Isso porque, como sugere Forquin (1996), muito mais que mero mecanismo formal, o movimento de seleção, classificação, organização e distribuição de saberes expõe, junto com a estruturação dos campos de conhecimento, as formas de distribuição dos poderes e as possibilidades da mudança atreladas às fricções do fluxo social. Em torno do processo letivo opera, pois, todo um complexo sistema de seleção cultural que endereça perspectivas sociais, nesse ato forjando, junto à instrução de um saber sistemático, um efeito de cognição social latente.
Imbuídos dessa marca de complexidade, os dispositivos educacionais se tornam objetos de disputas, tensões e contestações no cotidiano das instituições de ensino e no meio social, na medida em que legitimam conhecimentos produzidos e seus produtores, atribuem dignidade crítica aos conteúdos selecionados, engajam a reverberação e a reprodução das teorizações escolhidas. Eles são, assim, pleiteados como objeto a ser mantido ou mudado e como instrumento da própria mudança, exprimindo os desdobramentos da dialética contínua entre a sociedade, o conhecimento e a educação paramentada.
Nessa moldagem, se o cenário letivo atual se apresenta desafiador, pelo revolvimento dos fundamentos tectônicos há tempos acomodados no complexo científico das humanidades, ele também enseja a redescoberta das dotações específicas das diversas especialidades acadêmicas, reafirmando o valor heurístico da dimensão ensino para a compreensão da força de um campo.
Participando dessa convicção, alguns movimentos foram iniciados pela própria Biblioteca Virtual do Pensamento Social, a exemplo do banco de ementas publicado no Blog da BVPS, referente ao período 2023.2, que constituiu um esforço de reconhecimento, balizamento e disseminação de conteúdos do Pensamento Social na estratosfera do ensino das Ciências Sociais – exercício relevante que parece demandar revitalização. Outro movimento importante, anterior a esse, teve lugar no Seminário da BVPS em fins de 2017, no qual estimulantes provocações foram formuladas por Simone Meucci e Lucas Carvalho, posteriormente publicadas no texto Notas sobre o Pensamento Social Brasileiro nos currículos: pressupostos, inquietações e questões de uma pesquisa em elaboração.
Particularmente expressivo do debate que se busca instigar, esse breve texto publicado no Blog da BVPS em janeiro de 2018 chama atenção por apresentar um circuito potente de pesquisa iniciada e pautar uma necessária agenda de investigação sobre múltiplas dimensões do ensino do Pensamento Social. Nessa agenda recomenda-se estudar as matrizes curriculares dos cursos de graduação, os programas de ensino elaborados anualmente pelos docentes, os eventos realizados nos espaços institucionais e as percepções de docentes e discentes, explorando expressões curriculares e os mecanismos acionados no processo letivo. A proposta projeta, assim, atentar-se aos agentes mobilizadores, às instituições protagonistas, às estratégias de modulação dos conteúdos, aos limites, capacidades e transformações do campo nas rotinas de ensino.
Entretanto, passada já quase uma década desse inventário de urgências para a exploração da dimensão ensino, muito dessa agenda permanece ainda em aberto no campo. Desde 2023 a pesquisa Pensamento Social Brasileiro: currículo, ensino e aprendizado democrático, que venho desenvolvendo, tem inadvertidamente dialogado com esse repertório de preocupações, buscando explorar relações de sentido entre o conhecimento ensinado como Pensamento Social Brasileiro e os desdobramentos das mudanças sociais, num esforço que abarca a análise de programas de ensino, das matrizes curriculares e do perfil docente. E foi no percurso desse trabalho que se percebeu um conjunto de inquietações difusas que interpelam o pensamento social na condição de dispositivo educacional.
Esse conjunto crítico se relaciona a desafios coevos que se apresentam aos processos de ensino e de conformação curricular, atingidos como estão por racionalidades sociopolíticas em disputa; pelo difícil equacionamento dos aprendizados sociais da cidadania numa sociedade historicamente excludente; por questões sociais pungentes; pela configuração dos recursos de controle social; e por dinâmicas estruturais abrangentes, entre elas os efeitos das novas tecnologias. Essas afetações articulam concorrências em torno dos sentidos maiores da educação e dos recursos de circulação de conhecimentos, o que inclui também os circuitos controlados da educação escolar e seus instrumentos típicos no horizonte analítico dos fluxos, usos e reações às inteligibilidades providas pelos repertórios do pensamento social, na medida em que essa ambiência seleciona, sintetiza e repercute a produção intelectual na explicação pública da vida social.
Outro nó inescapável dessa teia de desafios estruturados são os impactos da pauta das diferenças, que interpelam os currículos acerca dos apagamentos epistêmicos, das periferizações de saberes, das ausências nas formulações dos conteúdos normalizados. Nesse percurso, não só o Pensamento Social Brasileiro, mas as Ciências Sociais como um todo são provocadas a discutir as possibilidades de alargamento do cânone diante das disrupturas de raça, gênero e regionalidades, e incitadas a escavar as jazidas teóricas e os pensamentos contra-hegemônicos silenciados no curso do desenvolvimento sociológico. E, ao mesmo tempo, esse exercício propicia recobrar as muitas formas de ler o cânone e de capturar suas contribuições para o desvelamento das excludências sociais.
É no enleio dessas fricções epistemológicas e socioestruturais que parecem tilintar as avaliações acerca do que o Pensamento Social Brasileiro tem a dar para a formação de cientistas sociais na contemporaneidade. Todavia, o balanço dessa conta não tem sido homogêneo, fomentando simultaneamente ganhos de terreno, descolamentos sensíveis e perdas salientes em composições curriculares de distintas instituições. As inserções, permanências e expansões se sustentam na compreensão de que o enredo analítico, forjado nas travessias interpretativas entre o passado e o presente, constitui um valor inegociável e particularmente potente para o desvelamento dos mecanismos sócio-históricos de condensação do padrão de sociabilidade excludente e autoritário que experimentamos e precisamos sobrepujar. De outro lado, as flexibilizações de carga horária, mudanças de status de componente obrigatório para optativo, ou exclusão das matrizes curriculares se vinculam à percepção do Pensamento Social como um conhecimento pretérito, idiossincrático, ou superado pelas novas e urgentes problematizações da vida social que impõem sua secundarização em favor de outros conteúdos mais necessários à preparação profissional no atual contexto.
Trata-se, pois, de um cálculo em que o mesmo caracterizador emerge como força legitimadora ou como marca de preterição, o que parece reclamar um exercício sociológico crítico não só das atribuições delegadas ao Pensamento Social Brasileiro enquanto componente curricular, mas dos condicionantes do desenvolvimento das Ciências Sociais e dos sistemas formativos como engrenagens de repercussão do conhecimento moldado.
O intento de contribuir para esse esforço deu vida a essa breve série no Blog da BVPS, que busca capturar diferentes perspectivas sobre as inquietações aqui apontadas, traçando um percurso de reflexão alargado acerca de como elas são percebidas e processadas a partir de enfoques heterogêneos. Para isso, provocou-se um conjunto de pesquisadoras e pesquisadores da história e do ensino das Ciências Sociais, das sociologias da educação, do currículo e do conhecimento, e referenciais contemporâneos do pensamento social para debater formas, deslocamentos e desafios dos dispositivos curriculares e formativos atuais.
É interessante perceber como o produto que daí emerge é pluriverso, talvez assistemático, revelando os muitos mundos que cabem nesse mundo ou que o atravessam, o desconfortam, o interrogam… Há uma complexidade de elementos críticos que ascendem diante da provocação sociológica de pensar os arranjos formativos do pensamento social na marcha das mudanças. Tal profusão parece, uma vez mais, reforçar o imperativo dessa agenda.
Notas
[1] Alguns exemplos de balanços que elencam estes como os traços marcadores da solidez do Pensamento Social são Arruda (2004), Maia (2009 e 2011), Bastos e Botelho (2010), Bastos (2011), Schwarcz e Botelho (2011), Botelho (2015), Brasil Jr. et al (2020) e Tresoldi e Helayel (2023).
[2] Algumas contribuições para a discussão do currículo como mecanismo de escalonamento social do conhecimento podem ser encontradas em Apple (1982, 1989), Forquin (1993, 1996), Silva (1995), Young (2010) e Macedo (2012).
Referências
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