Centenário de Octavio Ianni | “O jovem radical” de Octavio Ianni. Um ensaio em dois tempos, por Carmen Felgueiras

Dando continuidade à série Centenário Octavio Ianni: o que pode a sociologia?, trazemos esta semana texto de Carmen Felgueiras (UFF) dedicado ao ensaio de Octavio Ianni “O jovem radical”.

O que muda quando um mesmo texto é lido em dois momentos tão distintos da história política brasileira? É a partir dessa pergunta que Carmen Felgueiras revisita “O jovem radical”, acompanhando as transformações de seus sentidos entre 1963 e 1968. Ao recuperar os debates sobre industrialização, desenvolvimento e mobilização estudantil que atravessavam aquele período, a autora nos convida a perceber como a reflexão de Ianni sobre a juventude também era uma reflexão sobre a própria sociedade brasileira, suas formas de radicalização política e suas possibilidades de transformação.

Ao longo dos próximos meses, até o centenário de Octavio Ianni, a ser celebrado em outubro, a BVPS publicará, sempre às quartas-feiras, dois novos textos dedicados à análise de sua obra. Para saber mais sobre essa iniciativa, clique aqui. Outros textos podem ser conferidos aqui.

Boa leitura!


“O jovem radical” de Octavio Ianni. Um ensaio em dois tempos

Por Carmen Felgueiras (UFF)

As publicações em livro do ensaio “O jovem radical”, de Octavio Ianni, surgiram em dois momentos próximos, mas que, por força das circunstâncias políticas do país, se apresentam bastante distintos. Primeiro, em 1963, ele é publicado em seu livro Industrialização e desenvolvimento social no Brasil, o que desde logo desafia o leitor a entender por que um trabalho, cujo objeto declara ser o jovem de classe média e da burguesia, foi incluído na segunda parte do livro, sobre a formação da classe operária. Já em 1968, o mesmo ensaio reaparece na coletânea Sociologia da Juventude, I. Da Europa de Marx à América Latina de Hoje, como exemplar da produção latino-americana nessa área de estudos.

Nesse curto espaço de tempo, nos cinco anos de intervalo entre uma e outra publicação, a conjuntura política brasileira sofre transformações de tal monta que permitem leituras significativamente diversas desse ensaio. Sobretudo para os que acompanharam as três obras publicadas por Ianni nesse interregno,[1] subentendem-se seus propósitos de intervenção no debate político. Em suma, penso que as duas circunstâncias da publicação nos levam a duas direções interpretativas, quando enfatizamos um ou outro momento do mesmo texto.

Referenciando o conteúdo do livro de 1963, Ianni afirma no “Prefácio”, escrito em 1962:

Nessa obra reunimos alguns dos estudos publicados a partir de 1957 em Revista Brasiliense, Revista Brasileira de Estudos Políticos, Revista Brasileira de Ciências Sociais, Boletim do Centro Latino-Americano de Pesquisas e Planejamento, Ciências Políticas y Sociales (México), Diário de São Paulo, O Estado de São Paulo (Ianni, 1963: 13).

Como há menção à fonte de apenas um dos capítulos, o XVI, [2] a data original de “O jovem radical” continua imprecisa para aqueles que não recorreram aos títulos citados pelo autor. O mais provável, então, é que ele tenha sido escrito entre 1961 e 1962, dadas as referências às publicações da União Nacional dos Estudantes (UNE) de 1961. Assim, mesmo que não tenhamos o contexto exato da produção do trabalho, o período como um todo, ao qual o ensaio pode ser referido, é de mudanças econômicas, turbulência política e intensas mobilizações populares. Em rápida rememoração, sabemos que, em 1957, o governo JK inicia as obras de construção de Brasília, que seria inaugurada em 1960, momento em que o país vive a euforia do desenvolvimentismo com o Plano de Metas (50 anos em 5); em 1960, ocorre a eleição de Jânio Quadros e sua renúncia, em 1961, seguida pela adoção do parlamentarismo para permitir a posse do vice-presidente João Goulart. Nesses anos, a UNE, sob a direção da UJC, ligada ao PCB, radicalizava sua atuação, cobrando dos governos a implementação das reformas de base e a resistência anti-imperialista.

As perspectivas do movimento estudantil brasileiro são, pois, francamente favoráveis a uma união de todos pela luta popular que se trava no presente. (…) As batalhas que ainda temos a travar pela Escola Pública, pela Reforma Universitária, pela consolidação da luta anti-imperialista e anticapitalista do povo brasileiro, por uma união operário-estudantil-camponesa cada vez mais efetiva (UNE, 1961: 12-13, apud Torres, 2016).

Estabelecidas as coordenadas de uma primeira interpretação do ensaio, seguiremos o percurso das preocupações de Ianni com os temas da industrialização e do desenvolvimento –  preocupações que também orientaram outros trabalhos, como a tese de livre-docência de Fernando Henrique Cardoso, Empresário Industrial e Desenvolvimento Econômico no Brasil, apresentada na USP em 1963 e resultado de suas pesquisas entre 1961 e 1962, como parte do projeto mais amplo do Centro de Sociologia Industrial e do Trabalho (CESIT), criado em 1961 e dirigido por Florestan Fernandes.[3]

Tanto Empresário Industrial e desenvolvimento econômico no Brasil, de Fernando Henrique Cardoso, como Industrialização e desenvolvimento social no Brasil, de Octavio Ianni, têm um denominador comum evidente, que marcaria a época: a disputa entre as classes sociais, assim como a política de alianças entre as forças políticas, na condução do processo de desenvolvimento econômico e social do país.

Contudo, mais relevante, por ora, é a convergência entre ambos no que constitui seus argumentos de fundo: a definição do capitalismo, para a qual seguem as ideias de Marx e Engels expostas no Manifesto do Partido Comunista: “A transformação contínua da produção, o abalo ininterrupto de todas as condições sociais, a incerteza e os movimentos eternos, eis aí as caraterísticas que distinguem a época burguesa de todas as demais” (Marx & Engels, 2013: 81). Esse aspecto fundamental do capitalismo, sobretudo na etapa em que a hegemonia do capitalismo de Estado determina a importância da ação política para os atores sociais, é o pressuposto de um e outro trabalho.

Para Cardoso: “Na medida em que o empresário capitalista é peça do sistema (criador de novas condições para a valorização do capital), variaram suas técnicas e seus procedimentos de ação. Num sentido, novos ‘tipos de homens’ são requeridos” (Cardoso, 1964: 39). A estas palavras introdutórias segue-se o estudo do empresário dos países subdesenvolvidos, quando importa…

determinar as características do comportamento social dos industriais e a mentalidade empresarial existente, tentando defini-las como totalidades singulares que se constituíram a partir de condições específicas, que estruturam as possibilidades de ação e dão sentido aos projetos de realização econômica (Cardoso, 1964: 42).

Correlatamente, para Ianni:

A história do regime capitalista tem sido a história do advento político da juventude. (…) Para instaurar-se ou durante o seu desenvolvimento, o capitalismo transforma de maneira tão drástica as condições de vida dos grupos humanos, que a juventude se torna rapidamente um elemento decisivo dos movimentos sociais, em especial das correntes políticas de esquerda e de direita (Ianni, 1963: 159).

Por conseguinte, a ideia principal contida no ensaio é a de que o estudante burguês e de classe média teria, então, assumido a persona do jovem radical, primeiro por ser jovem, uma categoria afinada com o modus operandi do capitalismo e, em segundo lugar, radical por ter as condições estruturais para desalienar-se e adquirir uma visão ou consciência da totalidade social e de suas possibilidades de transformação.

Há, nesse sentido, uma similaridade de propósitos entre Ianni e Cardoso,[4] que é a busca dos limites da consciência e da ação humana diante das condições estruturantes. O ensaio “O jovem radical” e o livro Industrialização e desenvolvimento social no Brasil, como um todo, podem ser então considerados como a contribuição de Ianni para o CESIT, apontando não apenas para os aspectos econômicos, mas também para os sociais do desenvolvimento, bem como para a mentalidade do jovem universitário de quem o autor se aproximara – então beirando a maturidade e já na condição de professor assistente da Cadeira de Sociologia I da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, aos 35 anos.

Portanto, torna-se, enfim, explicada a inserção de “O jovem radical” como capítulo da segunda parte – “A formação da classe operária” – de Industrialização e desenvolvimento social no Brasil, por ser ela, a classe operária, a condição de possibilidade para que o jovem burguês e de classe média, a maioria dos estudantes secundaristas e dos universitários, se apercebessem das contradições sociais em que viviam e participassem da aliança operário-camponesa como elemento de vanguarda.

Diga-se, de passagem, que ecoam nesse argumento de Ianni o conceito de intelectual orgânico de Gramsci e as palavras de Lênin em seu discurso no III Congresso de Toda a Rússia da União Comunista da Juventude da Rússia, em 2 de outubro de 1920.

Ela [a juventude] só pode aprender o comunismo se ligar cada passo do seu estudo, da sua educação e da sua formação à luta incessante dos proletários e dos trabalhadores contra a velha sociedade exploradora. (…) Para o realizar precisamos da geração dos jovens que começaram a tornar-se homens conscientes nas condições da luta disciplinada e encarniçada contra a burguesia (Lenin, 1903).

Até aqui, destaquei três aspectos do texto de Ianni: o do diálogo institucional, ao participar dos grupos de pesquisa de seu orientador e colegas, o que o fez transitar pelos temas da raça, do desenvolvimento econômico e da educação; o aspecto político desse diálogo, que derivou da escolha mesma do objeto, do seu contato com os movimentos sociais estudantis e com a Campanha de Defesa da Escola Pública; e, por fim, o aspecto propriamente teórico, quando Ianni debate as formulações de Eisenstadt, Freud, Victor Serge, Sartre e Mannheim[5] sobre o tema da juventude. Na impossibilidade de explorar mais detidamente os comentários de Ianni a cada um desses autores, penso que é no confronto com Mannheim que o seu argumento ganha mais força. Inclusive, ganhará maior relevância em 1968, quando o leitor brasileiro tiver acesso ao texto do sociólogo alemão na primeira parte de Sociologia da Juventude, o que tornará mais fundamentada a recusa, dentre outras, do argumento funcionalista, o qual embute um suposto componente a-histórico do sistema social, “uma propriedade inovadora das gerações, independentemente das condições reais, dadas por determinadas configurações estruturais” (Ianni, 1963: 167). Inversamente, para Ianni,

Não se trata apenas de uma fase transitória – culturalmente produzida – da vida social das pessoas, consideradas individualmente, em face dos contextos familiar e social global. O inconformismo juvenil é, ao contrário, um produto possível do modo pelo qual a pessoa globaliza a situação social. No momento em que inicia o ingresso na sociedade ampla, o jovem descortina condições e possibilidades de existência que o tornam consciente tanto das condições reais como das emergentes (Ianni, 1963: 164).

Em síntese, os problemas sociológicos formulados por Mannheim e Ianni (e os problemas sociais por eles observados) eram bem diversos. Enquanto o primeiro questionava o excesso de laissez-faire do liberalismo, que dificultava a contribuição do jovem para a sociedade (Mannheim, 1968: 70), justificando, assim, mecanismos de controle e inclusão social numa Europa do pós-guerra, o segundo se preocupava com as condições necessárias para a tomada de consciência e a ação do jovem em sentido revolucionário e socialista.

Como diferentes comentadores de sua obra – Bastos (2004), Cohn (2004), Ortiz (2008), Botelho (2004), Martins (2004), entre outros – são unânimes em afirmar, além de sua ética profissional exemplar, do refinamento poético de sua sociologia e de sua sociologia como vocação, o pensamento de Ianni caracteriza-se por ser multifacetado, pela aspiração à compreensão da totalidade social, sem, contudo, deixar de observar fenômenos mais singulares, mais específicos. Como ele próprio diz no prefácio de Industrialização e desenvolvimento social no Brasil:

ainda que não pretendam ser completos, estes estudos revelam algumas das principais facetas dos fenômenos e processos focalizados. Além disso, eles levantam questões paralelas, às vezes fundamentais, que merecem futuras pesquisas e reflexões mais detidas (Ianni, 1963: 13).

Uma dessas questões é justamente a do jovem. Gabriel Cohn, em “A longa viagem de Octavio Ianni”, considera que este foi

o caso que fascinou Ianni por toda a vida e foi assunto de um de seus primeiros e melhores ensaios, [ou seja] qual a constelação de formas que configura o jovem como jovem e, em circunstâncias determinadas, lhe dá a qualidade de radical? O desafio que ele enfrentava com plena consciência consiste em dar expressão racional e adequada a um mundo uno mas não definido, sempre tenso entre o fechamento e a fragmentação (Cohn, 2004).

Seria preciso então, a partir de 1968, ler o ensaio inserindo o fragmento em uma nova totalidade. Assim, na segunda direção de interpretação proposta neste artigo, vemos “O jovem radical” aparecer junto aos trabalhos de autores latino-americanos no livro de 1968, Sociologia da Juventude, I. São eles o sociólogo espanhol exilado no México José Medina Echevarria, com um texto de 1966; o sociólogo argentino Edmundo Sustaita, com um texto de 1961; e o brasileiro Glaucio Dillon Soares, com um texto de 1964.

Em “O jovem radical” não há menções a esses autores, posto que o ensaio não sofre modificações desde 1963, salvo algumas mudanças gráficas, enfatizando certas passagens, o que teria uma importância óbvia para uma exegese mais detida do texto.

Contudo, a preocupação aqui é saber em que medida o ensaio dialoga com a conjuntura de extrema mobilização e repressão de 1968, cujos eventos se iniciam em 28 de março, com a morte do estudante Edson Luiz de Lima Souto pela polícia no Rio de Janeiro, continuam, em 26 de junho, com a Passeata dos Cem Mil, que reuniu estudantes, artistas e intelectuais no Rio de Janeiro contra a ditadura, sendo o maior protesto popular desde o golpe, e culminam na decretação do Ato Institucional nº 5 (AI-5), em 13 de dezembro, o que resultaria na aposentadoria precoce de Ianni, aos 42 anos de idade, assim como na de vários intelectuais, dentre eles Florestan Fernandes.

Se aplicarmos o método proposto por Ianni ao seu próprio texto, tudo indica que ele deva ser lido de forma articulada às preocupações mais amplas com a estrutura econômica, social e política do capitalismo e, em particular, com a conjuntura do país. Isso permite que partes do ensaio, que antes apareciam como hipóteses, fundadas em evidências históricas algo remotas, como as do nazismo e do fascismo, se iluminem. É o caso daquela em que jovens, desiludidos, mas “inconformados”, [6] são capturados por forças de direita e de extrema direita, numa dupla alienação, e se engajam na ação política antidemocrática, procurando eliminar não apenas as ideologias, mas seus portadores.

Nesse sentido, o ensaio também antecipa as ideias da apresentação ao livro Política e revolução social no Brasil, redigida em julho de 1964. O quadro histórico de 1937 a 1964, de que trata o livro, seria marcado pela “incapacidade para defender e revigorar o regime democrático”, ou seja, a industrialização e a independência econômica não seriam acompanhadas integralmente pelas instituições democráticas: “há sempre uma ampla margem de ilegalidade na vida política nacional” (Ianni et al., 1965: 9).

Já em O colapso do populismo no Brasil,[7] o jovem radical precisaria ter consciência inclusive dos equívocos da própria esquerda, enredada na política de massas do populismo e num certo bovarismo teórico, conforme apontado por Caio Prado Júnior em A revolução brasileira, tese endossada por Ianni.

Assim como pontuei o termo “inconformados”, efetuando uma espécie de leitura sintomal, creio que a insistência, no ensaio, sobre o termo “imaturo”, de conotação em geral pejorativa, estaria indicando a imaturidade dos atores e do momento. Ou seja, as condições ainda não estariam “maturadas” para a revolução socialista no Brasil. O comportamento do jovem que se conformava ao status quo, aquele que assumia compromissos pessoais (casamento, família, emprego) que limitavam sua atuação política, provavelmente passaria a ser visto com outros olhos diante do recrudescimento da repressão da ditadura.

A mobilidade social e o funcionamento dos mecanismos de controle social, particularmente os de repressão drástica e sistemática da atuação revolucionária, produzem a reorganização do comportamento humano em outras bases, orientando-o para ideais consentâneos com a configuração presente da sociedade (Ianni, 1975: 239, grifos meus).

Neste breve texto, apenas esbocei, em linhas gerais, uma possibilidade de análise do ensaio de Ianni. Somente uma leitura minuciosa de sua obra permitiria afirmar por que o texto de 1961-62 ainda se mantém válido para o autor em 1968. Tal permanência talvez indique que uma análise da totalidade social e da conjuntura do momento poderia levar a uma conclusão contrária ao que se qualificaria como voluntarismo dos jovens engajados na luta armada contra a ditadura – a saber, a inexistência de condições objetivas para o êxito do movimento. Ou, então, como se lê nas últimas linhas de O colapso do populismo no Brasil, essa persistência poderia ser lida como um sinal do otimismo algo inabalável de Ianni quanto à continuidade da radicalidade do jovem no capitalismo.

O populismo terá sido apenas uma etapa na história das relações entre as classes sociais. Nesse sentido é que se pode dizer que, no limite do populismo, está a luta de classes. Da mesma forma, no limite da ditadura de vocação fascista pode estar a sociedade socialista (Ianni, 1975: 213).


Notas

[1] São elas: Política e revolução social no Brasil, de 1965; Estado e capitalismo no Brasil, também de 1965; e O colapso do populismo no Brasil, de 1968 (1ª edição).

[2] Este capítulo de Industrialização e desenvolvimento social no Brasil, intitulado “Educação e Mudanças Sociais no Brasil”, “reúne as reflexões do autor nas comunicações apresentadas no Seminário sobre Reforma Universitária, promovido pela União Estadual dos Estudantes em São Paulo, em 30 de abril de 1961, e no 1º Seminário Nacional de Reforma Universitária, realizado pela União Nacional dos Estudantes, em Salvador, em 24 de maio de 1961” (Ianni, 1963: 192).

[3] É também por intermédio de Florestan que Ianni se aproxima de Fernando de Azevedo na Campanha em Defesa da Escola Pública, inaugurada durante a I Convenção Estadual em Defesa da Escola Pública, na cidade de São Paulo, em 5 de maio de 1960. Essa Campanha desencadeará todo um conjunto de reflexões que encontramos na terceira parte – “Educação e Classes sociais” – de Industrialização e desenvolvimento social no Brasil.

[4] Há vários outros pontos de intercessão e de divergência entre ambos, sobre os quais uma síntese apressada nos levaria a correr o risco de simplificações extremas. Ainda que a ênfase de Fernando Henrique esteja no empresariado industrial, ele não ignora, em sua análise, os impasses e as indecisões dessa classe diante das pressões de setores atrasados da economia e das massas urbanas. Para Ianni, se o protagonista é o jovem, cuja consciência se radicaliza e, com isto, se torna um agente possível de transformação e desenvolvimento do sistema social, esse jovem não é um ente abstrato, mas está submetido ao seu momento de existência concreta, como, aliás, seus leitores ficarão ainda mais esclarecidos ao conhecerem sua análise do populismo, escrita no período de 1966-1967. Embora a crença no socialismo dividisse suas opiniões, a impossibilidade de uma revolução burguesa no Brasil era fato consumado para ambos.

[5] Mannheim participa da coletânea Sociologia da Juventude, I, com o capítulo “O problema da juventude na sociedade moderna”, publicado originalmente em Diagnosis of Our Time, em 1943. Ianni cita, no texto de 1963, a quinta edição inglesa, de 1950.

[6] O termo parece ser uma alusão ao filme de François Truffaut, de 1959, cujo título original é Les quatre cents coups e que foi traduzido no Brasil como Os incompreendidos. A propósito da predileção de Ianni pelas referências cinematográficas, há, em “O jovem radical”, uma sofisticada análise de Rocco e seus irmãos, de Luchino Visconti.

[7] O colapso do populismo no Brasil foi escrito entre julho de 1966 e outubro de 1967 para um curso sobre a crise brasileira nos programas de pós-graduação promovidos pelo Institute of Latin American Studies, da Columbia University, em Nova York, no período de fevereiro a maio de 1967.

Referências

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IANNI, Octavio. (1965). Política e revolução social no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.

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LENIN, Vladimir I. (1903). As tarefas da juventude revolucionária. In: LENIN, V. I. Obras completas. v. 5. p. 356-374.

MARTINS, José de Souza. (2004). Ianni, a poesia na sociologia. Tempo Social. São Paulo, v. 16, n. 1, p. 25-28.

MARX, Karl & ENGELS, Friedrich. (2013). O manifesto do partido comunista. In: BOTELHO, André (Org.). Essencial sociologia. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras.

ORTIZ, Renato. (2008). Octavio Ianni: a ironia apaixonada. Sociologias, n. 20, p. 319-328.

TORRES, Carla Michele Ramos. (2016). A União Nacional dos Estudantes: história, educação e política no Brasil na década de 1960. In: Reunião Científica Regional da ANPED, 11., 2016, Curitiba. Anais… Curitiba: UFPR.

Sobre a autora

Carmen Felgueiras é professora da Universidade Federal Fluminense (UFF), onde atua no Departamento de Sociologia e Metodologia das Ciências Sociais e no Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Direito. Desenvolve pesquisas nas áreas de pensamento social brasileiro, sociologia dos intelectuais e da cultura e teoria sociológica.