Sociológicas | Nos labirintos da granja, por Maria Moraes

Nesta edição da série Sociológicas, Maria Moraes (UFSCar) compartilha o testemunho de Lourdes (nome fictício), ex-trabalhadora de uma granja de galinhas poedeiras. A entrevista foi realizada em 2016 e serve para Moraes discutir as diferentes formas de violência assumidas pela superexploração laboral, como a crueldade do manejo animal e a apropriação do afeto feminino para a maximização do lucro. O texto tece diálogo com a pensadora alemã Roswitha Scholz, cuja concepção de patriarcado mobilizada por Moraes ajuda a iluminar detalhes da dinâmica de trabalho paulista; ou, como o título indica, dos labirintos da granja.

Sociológicas é um espaço de reflexão da BVPS Edições, voltado para discutir problemas do presente e os processos sociais que este ainda oculta, a partir de uma perspectiva sociológica.

Boa leitura!


Nos labirintos da granjai

Por Maria Moraes (UFSCar)

Mas ela lembrava e ria, era da cara engraçada que fazia no caminhão, naquelas madrugadas, aquela cara engraçada de medo, que as outras mulheres já sabiam imitar direitinho. A cara engraçada do medo. Murilo de Carvalho

Havia perigo, a gente ia sempre em grupo, nunca … não entra sozinha na granja porque é perigoso. (Lurdes).

Vejamos o exemplo da situação laboral em uma granja que produz galinhas poedeirasii. Ouçamos a voz de Lourdes (nome fictício). Sua fala retrata a dureza, as dificuldades e, tal como no labirinto, seu trabalho era realizado no escuro:

P. Havia outras mulheres?

P. Você tinha alguma proteção facial?

P. E como você limpava o galpão nessa escuridão?

Lourdes, como foi dito acima, é uma ex-trabalhadora da granja. Por isso, aceitou ser entrevistada e sua fala foi livre, sem medo, mesmo porque, atualmente, trabalha em um escritório na cidade. Muitos elementos podem ser extraídos de seu testemunho, quais sejam: i) A violência do trabalho manifesta no tratamento dado às aves, impondo-lhes sofrimento em razão da gigantesca quantidade, reunidas num espaço sem luminosidade, com pouca comida, levando-as a agredirem aos/as trabalhadores/as e a comerem umas às outras, num ambiente extremamente insalubreiii; ii) A violência contra os/as trabalhadoras manifesta pelas normas de controle do processo de trabalho; iii) a superexploração produzida por extensas jornadas com turnos ininterruptos de seis horas, com efeitos sobre a saúde mental, além de física; iv) dominação patriarcal, na medida em que era obrigada ao trabalho com as aves e também ao trabalho doméstico para sua família e para os demais empregados que viviam num alojamento ao lado da granja; v) apropriação do trabalho emocional, na medida em que cuidava dos pintainhos, aquecendo-os por não estarem com suas mães, havendo, assim, a apropriação do sentimento e do afeto da maternagem.

O trabalho e a maneira de produzir (baseada em orientações dos técnicos) são produtos da acumulação primitiva e da colonialidade objetiva (trabalho, poder, saber) e subjetiva. Lourdes sofre fisicamente e mentalmente os efeitos da violência laboral imposta. O fato de omitir a gravidez para não ser despedida foi a forma encontrada para a garantia de sua sobrevivência. Ela vivencia o processo de servidão voluntária, portanto, aceita o uso da máscara imposta pelas relações patriarcais. Consegue a licença maternidade porque processa juridicamente a empresa. Portanto, rebela-se. No entanto, a alternativa encontrada foi o trabalho nos pomares de laranja, na tarefa que consistia em distribuir veneno nas laranjeiras com pragas. Trata-se de uma tarefa que traz muitos malefícios à saúde, que são totalmente desconhecidos pela trabalhadora. Assim que terminava a distribuição do veneno nas laranjeiras, era destinada a distribuir formicida nos formigueiros.

A trajetória laboral de Lourdes é semelhante àquela de muitas outras mulheres. Trata-se de um verdadeiro nomadismo, tal como demonstrei no artigo (Silva, 2016). As tarefas destinadas às mulheres são marcadas pelos critérios sexistas e estereótipos que as definem como mais atenciosas, cuidadosas e somente capazes de exercerem atividades leves, além das atividades domésticas e os cuidados com os filhos. São esses elementos introjetados pela dominação patriarcal, invisíveis, que permitem aos donos do capital se apropriarem do excedente do trabalho feminino, acima dos valores produzidos pelos homens. Trata-se de uma mais-valia captada e invisibilizada pelos coeficientes dos economistas. Partilhamos da concepção de patriarcado, segundo a pensadora alemã, Roswitha Scholz (2017: 1):

No sentido aventado aqui, o domínio baseia-se essencialmente na institucionalização e na internalização de normas sancionadas pela coletividade… Do meu ponto de vista, pelo contrário, a dominação é sem sujeito por sua própria essência, ou seja, os depositários do domínio não são sujeitos autoconscientes, mas agem no interior de uma moldura de sociabilidade dotada de constituição historicamente inconsciente. O valor sem sujeito remete ao homem sem sujeito, que na qualidade de dominador, de iniciador e realizador, colocou em movimento instituições culturais e políticas capazes de cunhar a história, que começaram a ter vida autônoma, inclusive com relação a ele. 

Scholz desenvolve a tese de que “o valor é o homem” (grifos da autora) não o homem como ser biológico, mas o homem como depositário histórico da objetivação valorativa. Todos os elementos sensíveis, tradicionalmente imputados às mulheres e tidos como inferiorizados, são externalizados, logo, não fazem parte do valor. Haveria, assim, a cisão causada pelo patriarcado do valor. Porém, a cisão é, em consequência, integrante do valor. Segundo ela, o mecanismo patriarcal da cisão deve ser visto não como acréscimo externo, mas, como uma alteração qualitativa da própria teoria do valor (2017: 3).

Na história laboral do estado de São Paulo, por exemplo, há vários elementos que comprovam a tese da cisão (entre reprodução e produção) como constitutiva do valor. A divisão sexual do trabalho está impregnada dos valores patriarcais. No caso da trabalhadora da granja, o trabalho emocional (o cuidado com as aves) é um fator importante que assegura o mais valor, sem dispêndio para os donos do capital. Em alguns momentos, Lourdes mencionou o fato de que as mulheres são preferidas para o cuidado dos pintainhos porque os homens são brutos, chegando até mesmo a chutá-los, em razão dos piados constantes, causando-lhes estresse. Do mesmo modo, a distribuição do veneno, envolve o cuidado com a planta. Cuidado, trabalho emocional, produto do patriarcado do valor.


Notas

i SILVA, M. A. M. (2016). Las trabajadoras nómadas. Revista de Ciencias Sociales, volume 29, pp. 15-34.

ii Trata-se de uma ex-trabalhadora da granja. Muitas outras trabalhadoras se negaram a nos conceder a entrevista em razão do controle das empresas e do medo de perderem o emprego. O conteúdo do depoimento é muito importante para a compreensão da interseccionalidade das categorias gênero/classe/patriarcado. Por isso, optei por colocá-lo na íntegra.

iii O confinamento de aves em grande quantidade já provocou várias epidemias, sobretudo na China, onde, em fevereiro de 2020 foi registrada a H5N1, que resultou na morte de milhares de galinhas. Recuperado daqui.

Referências

SCHOLZ, R. (2017). O valor é o homem. Exit. Recuperado daqui.

SILVA, M. A. M. (2016). Las trabajadoras nómadas. Revista de Ciencias Sociales, volume 29, pp. 15-34.