
Nesta edição da série Sociológicas, Maria Moraes (UFSCar) compartilha o testemunho de Lourdes (nome fictício), ex-trabalhadora de uma granja de galinhas poedeiras. A entrevista foi realizada em 2016 e serve para Moraes discutir as diferentes formas de violência assumidas pela superexploração laboral, como a crueldade do manejo animal e a apropriação do afeto feminino para a maximização do lucro. O texto tece diálogo com a pensadora alemã Roswitha Scholz, cuja concepção de patriarcado mobilizada por Moraes ajuda a iluminar detalhes da dinâmica de trabalho paulista; ou, como o título indica, dos labirintos da granja.
Sociológicas é um espaço de reflexão da BVPS Edições, voltado para discutir problemas do presente e os processos sociais que este ainda oculta, a partir de uma perspectiva sociológica.
Boa leitura!
Nos labirintos da granjai
Por Maria Moraes (UFSCar)
Mas ela lembrava e ria, era da cara engraçada que fazia no caminhão, naquelas madrugadas, aquela cara engraçada de medo, que as outras mulheres já sabiam imitar direitinho. A cara engraçada do medo. Murilo de Carvalho
Havia perigo, a gente ia sempre em grupo, nunca … não entra sozinha na granja porque é perigoso. (Lurdes).
Vejamos o exemplo da situação laboral em uma granja que produz galinhas poedeirasii. Ouçamos a voz de Lourdes (nome fictício). Sua fala retrata a dureza, as dificuldades e, tal como no labirinto, seu trabalho era realizado no escuro:
Então o nosso trabalho lá era basicamente o quê, o pintinho veio um dia e a gente cuidou, esquentou, deu comida, deu água e… o dia todo assim, até completar dez dias. Eles vinham sem a mãe. A gente cuidava deles como se fôssemos a mãe deles. A gente trabalhava 24 horas direto, a gente fazia rodízio a cada seis horas, então chegávamos em casa, dormíamos seis horas e voltávamos lá, porque todo mundo que trabalhava morava perto, e a gente fazia aquele turno assim, trabalhava seis horas seguidas, ficávamos em casa seis horas, voltávamos a trabalhar seis horas, ficávamos em casa seis horas, revezando-se para cuidar dos filhotes, nos primeiros dez dias. Depois desses dez dias, o pintinho foi para a fase de engorda, e eles também foram selecionados, os machos tiveram que ser separados, não foi possível, porque a gente queria só a mãe, né? Aí os machos foram para outro lugar, e as fêmeas ficaram lá, a gente preparou para que engordassem e a galinha engorda… a mãe do pintinho engorda, tem nome, esqueci o nome dela, não é útero, é outro nome, é… Ela não pode engordar demais, não pode ter gordura e corpo muito grande, porque, porque ela é uma galinha que tem um tratamento especial para dar um pintinho bom, um pintinho que não vai ter carência nenhuma, tudo, aí depois de dez dias…
Trabalhamos em turnos escalonados, trabalhávamos oito horas por dia, uma hora de almoço, que é nove horas, tínhamos uma hora de almoço, e a gente cuidava da limpeza do galpão, do cuidado que não pode ser de graça, da comida que, enfim, você tem que cuidar das galinhas só duas vezes ao dia, e limpar o cocho, a gente limpava…
A galinha come, quando ela está com fome, ela começa a comer outra galinha, então cortamos fora o bico dela. Tem uma maquininha, quando eles chegam, depois de uns vinte dias você pode começar a cortar. É uma maquininha com a qual cortam a ponta do bico, se corta com uma maquininha e queima, como se fosse um ferro quente, mas elétrico. Então, uma pessoa corta, e outra queima, e nós cortamos também, porque temos que cortar na ponta, porque como elas têm uma restrição alimentar muito grande, elas não podem engordar, elas têm que crescer, mas não podem engordar, então como elas têm muita necessidade de comida, comem-se vivos, sabe? Há uma estação. Então elas são criadas no escuro, aquelas galinhas, elas passam cinco meses na escuridão total.
Não, quando ela… ela vê luz aos seis meses, e quando ela vê ela começa a botar, é para acelerar a postura de ovos de galinha. Interessante né, porque nunca tinha visto isso na minha vida, pela primeira vez vi quando fui trabalhar na fazenda. Mas assim, uma galinha, quando você tem uma galinha para criar em casa, a gente tinha galinha a vida toda, eu sempre morei na fazenda. E você pega a galinha para criar em casa, a galinha demora um ano pra botar ovos, e não ali, aí em seis meses a galinha começa a botar, mas foi por causa disso, ela ficou trancada no escuro. Então a gente fazia toda essa parte, limpar o cocho, cuidar da galinha no escuro. Lá, quando ela foi para a iluminação, ela não via a claridade do sol uns cinco, quase seis meses, ela começou a se pôr, ela amadureceu… a galinha está maturando mais rápido, não sei como eles cuidaram disso, mas ela estava começando a botar ovos. Lá quando ela começou a botar em vinte dias eles vêm e carregam elas para ir onde os ovos são coletados, porque aqui eles não coletavam. Só fizemos a parte da galinha até chegarmos à fase de postura, voltou o pintinho de um dia. Assim começou o cuidado com a comida, com o aquecimento, porque como eles não têm a mãe para aquecê-los, tem que aquecê-los com tambores grandes onde colocam o gás e uma vela que é um aquecedor a gás. Aí tudo recomeçou, carinho, comida, despique, um remédio hormonal para que cresçam mais rápido, dá um remédio debaixo da asa para todas as galinhas, e assim foi, foi muito, quarenta mil pintos…
Vinham oitenta mil pintinhos de uma vez, e éramos poucos funcionários, lá na fazenda
P. Havia outras mulheres?
Não, eu era a única mulher entre doze homens, fui trabalhar com meu marido para ajudar os filhotes, e como não tinha ninguém para cozinhar eu fazia a comida também, fazia a alimentação, o café, o almoço e o jantar de todo o mundo, de todo o mundo. Comecei a trabalhar lá na cozinha, mas como não tinha quem ajudasse… é assim mesmo, roça, roça, você é contratado para uma coisa, mas tem que fazer tudo, então eu fiz comida, cuidei dos pintinhos, limpei o banheiro, limpei tudo, porque o pintinho é muito sensível, porque ele não consegue se alimentar, um monte de coisas. O galpão era comprido, estreito e a cada dez metros tinha uma divisão de galinhas, e essa divisão também era por peso, as galinhas no início pesavam menos, e as galinhas no final pesavam mais. Então as galinhas que pesam mais comem menos, as galinhas que pesam menos comem mais e as do meio comem exatamente o que é estipulado pelo técnico agrícola de lá. Então as galinhas ali, elas estavam famintas, elas se comiam umas às outras, elas estavam famintas.
P. Você tinha alguma proteção facial?
Não tem, na verdade a única proteção é o macacão e a bota de borracha. Havia perigo, a gente ia sempre em grupo, nunca… não entra sozinha na granja porque é perigoso. Enquanto tu te proteges de um aqui, vem outro aqui, vem voando, não tem a asa cortada, vem voando de longe. Era perigoso, mas a gente sempre entrava em três, quatro, meu marido trabalhava comigo. Mas é perigoso.
O cheiro é horrível, de amônia e então, com o tempo você vai se acostumando com o cheiro, mas o cheiro de amônia é muito forte.
P. E como você limpava o galpão nessa escuridão?
Não é limpo.
Fica tudo em cima, quando saem todos os frangos, que eles tiram, chega um trator e raspa o mais grosso e joga fora. Aí a máquina carrega o caminhão, e nós raspamos com uma secadora, uma grande secadora de aço assim, raspamos o que quer que grudasse no concreto. Aí, depois de raspar tudo, a gente começou a desinfetar tudo pra começar a ter aquela cama de galinhas de novo, e botam serragem, que fica aí… A galinha fazendo cocô, jogando água e despejando ração, e uma morrendo, aí morre e as outras comem, cai sangue, cai pena, cai tudo aí, chega… quando faz muito calor no verão aqui o cheiro é insuportável, e moscas, moscas demais, porque chegam a cheirar… No início da gravidez principalmente por causa do cheiro ali, então quando eu engravidei eu não poderia dizer que estava grávida, porque se eles soubessem me despediriam…
(Entrevista realizada em 2016).
Lourdes, como foi dito acima, é uma ex-trabalhadora da granja. Por isso, aceitou ser entrevistada e sua fala foi livre, sem medo, mesmo porque, atualmente, trabalha em um escritório na cidade. Muitos elementos podem ser extraídos de seu testemunho, quais sejam: i) A violência do trabalho manifesta no tratamento dado às aves, impondo-lhes sofrimento em razão da gigantesca quantidade, reunidas num espaço sem luminosidade, com pouca comida, levando-as a agredirem aos/as trabalhadores/as e a comerem umas às outras, num ambiente extremamente insalubreiii; ii) A violência contra os/as trabalhadoras manifesta pelas normas de controle do processo de trabalho; iii) a superexploração produzida por extensas jornadas com turnos ininterruptos de seis horas, com efeitos sobre a saúde mental, além de física; iv) dominação patriarcal, na medida em que era obrigada ao trabalho com as aves e também ao trabalho doméstico para sua família e para os demais empregados que viviam num alojamento ao lado da granja; v) apropriação do trabalho emocional, na medida em que cuidava dos pintainhos, aquecendo-os por não estarem com suas mães, havendo, assim, a apropriação do sentimento e do afeto da maternagem.
O trabalho e a maneira de produzir (baseada em orientações dos técnicos) são produtos da acumulação primitiva e da colonialidade objetiva (trabalho, poder, saber) e subjetiva. Lourdes sofre fisicamente e mentalmente os efeitos da violência laboral imposta. O fato de omitir a gravidez para não ser despedida foi a forma encontrada para a garantia de sua sobrevivência. Ela vivencia o processo de servidão voluntária, portanto, aceita o uso da máscara imposta pelas relações patriarcais. Consegue a licença maternidade porque processa juridicamente a empresa. Portanto, rebela-se. No entanto, a alternativa encontrada foi o trabalho nos pomares de laranja, na tarefa que consistia em distribuir veneno nas laranjeiras com pragas. Trata-se de uma tarefa que traz muitos malefícios à saúde, que são totalmente desconhecidos pela trabalhadora. Assim que terminava a distribuição do veneno nas laranjeiras, era destinada a distribuir formicida nos formigueiros.
A trajetória laboral de Lourdes é semelhante àquela de muitas outras mulheres. Trata-se de um verdadeiro nomadismo, tal como demonstrei no artigo (Silva, 2016). As tarefas destinadas às mulheres são marcadas pelos critérios sexistas e estereótipos que as definem como mais atenciosas, cuidadosas e somente capazes de exercerem atividades leves, além das atividades domésticas e os cuidados com os filhos. São esses elementos introjetados pela dominação patriarcal, invisíveis, que permitem aos donos do capital se apropriarem do excedente do trabalho feminino, acima dos valores produzidos pelos homens. Trata-se de uma mais-valia captada e invisibilizada pelos coeficientes dos economistas. Partilhamos da concepção de patriarcado, segundo a pensadora alemã, Roswitha Scholz (2017: 1):
No sentido aventado aqui, o domínio baseia-se essencialmente na institucionalização e na internalização de normas sancionadas pela coletividade… Do meu ponto de vista, pelo contrário, a dominação é sem sujeito por sua própria essência, ou seja, os depositários do domínio não são sujeitos autoconscientes, mas agem no interior de uma moldura de sociabilidade dotada de constituição historicamente inconsciente. O valor sem sujeito remete ao homem sem sujeito, que na qualidade de dominador, de iniciador e realizador, colocou em movimento instituições culturais e políticas capazes de cunhar a história, que começaram a ter vida autônoma, inclusive com relação a ele.
Scholz desenvolve a tese de que “o valor é o homem” (grifos da autora) não o homem como ser biológico, mas o homem como depositário histórico da objetivação valorativa. Todos os elementos sensíveis, tradicionalmente imputados às mulheres e tidos como inferiorizados, são externalizados, logo, não fazem parte do valor. Haveria, assim, a cisão causada pelo patriarcado do valor. Porém, a cisão é, em consequência, integrante do valor. Segundo ela, o mecanismo patriarcal da cisão deve ser visto não como acréscimo externo, mas, como uma alteração qualitativa da própria teoria do valor (2017: 3).
Na história laboral do estado de São Paulo, por exemplo, há vários elementos que comprovam a tese da cisão (entre reprodução e produção) como constitutiva do valor. A divisão sexual do trabalho está impregnada dos valores patriarcais. No caso da trabalhadora da granja, o trabalho emocional (o cuidado com as aves) é um fator importante que assegura o mais valor, sem dispêndio para os donos do capital. Em alguns momentos, Lourdes mencionou o fato de que as mulheres são preferidas para o cuidado dos pintainhos porque os homens são brutos, chegando até mesmo a chutá-los, em razão dos piados constantes, causando-lhes estresse. Do mesmo modo, a distribuição do veneno, envolve o cuidado com a planta. Cuidado, trabalho emocional, produto do patriarcado do valor.
Notas
i SILVA, M. A. M. (2016). Las trabajadoras nómadas. Revista de Ciencias Sociales, volume 29, pp. 15-34.
ii Trata-se de uma ex-trabalhadora da granja. Muitas outras trabalhadoras se negaram a nos conceder a entrevista em razão do controle das empresas e do medo de perderem o emprego. O conteúdo do depoimento é muito importante para a compreensão da interseccionalidade das categorias gênero/classe/patriarcado. Por isso, optei por colocá-lo na íntegra.
iii O confinamento de aves em grande quantidade já provocou várias epidemias, sobretudo na China, onde, em fevereiro de 2020 foi registrada a H5N1, que resultou na morte de milhares de galinhas. Recuperado daqui.
Referências
SCHOLZ, R. (2017). O valor é o homem. Exit. Recuperado daqui.
SILVA, M. A. M. (2016). Las trabajadoras nómadas. Revista de Ciencias Sociales, volume 29, pp. 15-34.
