BVPS Edições | Ensinar Pensamento Social | Educação e Pensamento social no Brasil: o currículo como elaboração onírica, por Alexandro Paixão

No sexto post da série Ensinar Pensamento Social, uma parceria com o INCT/CNPq Instituto Igualdade e Aprendizado Social organizada por Arilda Arboleya (UFPI), publicamos o texto “Educação e Pensamento Social no Brasil: o currículo como elaboração onírica”, de Alexandro Paixão (Unicamp).

Inspirando-se no clássico ensaio de Raymond Williams “A cultura é algo comum” (1958) Paixão revisita suas experiências como professor e coordenador na Unesp e na Unicamp, nos convidando a uma reflexão sobre as ausências nos currículos de Sociologia Geral que deságua em uma “elaboração onírica” de um ensino de Sociologia mais plural e atento às contribuições femininas para o pensamento social.

Mobilizando perspectivas diversas, a série reunirá nas próximas quintas-feiras pesquisadoras e pesquisadores da história e do ensino das Ciências Sociais, das sociologias da educação, do currículo e do conhecimento, e do pensamento social contemporâneo, para debater as formas, os deslocamentos e os desafios dos dispositivos curriculares e formativos atuais.

Boa leitura!


Educação e Pensamento Social no Brasil: o currículo como elaboração onírica

Por Alexandro Paixão (Unicamp)

Em 1958, Raymond Williams (1921-1988), em um ensaio primoroso intitulado “A cultura é algo comum”, alertava-nos sobre a necessidade de os currículos das universidades britânicas serem repensados:

[…] não estou pensando apenas na reorganização do acesso a tipos específicos de educação. Acho que mais do que isso, é preciso repensar os conteúdos. Tenho a honra de trabalhar para uma organização através da qual, de forma bem prática, os trabalhadores reformularam o currículo das universidades inglesas. Trata-se hoje da mesma questão de antes: o defeito não é o que está sendo dado, mas o que é deixado de fora. 

Inspirado nessa necessidade de “repensar os conteúdos”, na “reformulação do currículo” e no “que é deixado de fora”, irei me apoiar em minhas experiências de ensino em duas universidades públicas paulistas, onde atuei em 2006 e 2007: no curso de Pedagogia ensinando, como professor substituto, Sociologia Geral na Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Marília; depois, de 2014 até o presente momento, como professor de Sociologia Geral da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Nessas ocasiões, apesar da posição de professor temporário na Unesp, tive a oportunidade de participar como professor-representante da reformulação do curso de Ciências Sociais; na Pedagogia da Unicamp, apresentei uma proposta de reformulação como coordenador de curso (2018-2020). Espero, com estas experiências pessoais-profissionais, contribuir com esta série da Biblioteca Virtual do Pensamento Social (BVPS) dedicada à discussão sobre currículo e pensamento social, apresentando ao final uma proposta de currículo na forma de uma elaboração onírica para tornar manifesto um universo de desejos para uma proposta de ensino de Sociologia Geral que enfoque o Pensamento Social no Brasil. Não pretendo aqui fazer uma crítica dos currículos de Sociologia Geral existentes, afinal, não sou um pesquisador de currículos; nem mesmo sugerir uma reformulação de um currículo universitário ou planejar um novo currículo escolar para a Sociologia Geral. O que pretendo é apresentar minhas experiências de ensino e combiná-las depois com as pesquisas que venho realizando sobre Sociologia, Literatura e Psicanálise, e como elas me ajudam a sonhar outros enfoques curriculares.

Um dos primeiros objetivos da reformulação de um curso é “repensar seus conteúdos”; nos dois momentos experimentados, uma equipe de coordenadores-professores, docentes, discentes e funcionários se debruçou exaustivamente em revisar os conteúdos ensinados nas duas faculdades, em diferentes momentos. Enfatizo essa questão da temporalidade, porque, em 2007, não priorizávamos na reformulação do curso de Ciências Sociais da Unesp uma pauta relacionada aos marcadores sociais de diferença. Não que esses conteúdos não estivessem presentes nem fossem discutidos em diferentes disciplinas, mas não recebiam ênfase. Diferentemente, em 2019, na Unicamp, a agenda curricular estava pautada por conteúdos que enfatizavam determinadas categorias sociológicas, especialmente, raça e gênero.

Nos dois casos, tivemos vários motivos para questionar e reclassificar diferentes conteúdos. O que ficou marcado em minha memória, depois de 20 anos em relação à Unesp e 8 anos sobre a Unicamp, não foi o esgotamento do currículo, mas uma necessidade de atualização, especialmente, sobre a questão de raça e gênero, que tinha sido “deixada de fora”.

Foi graças ao acúmulo de vivências e discussões acadêmicas entre professores e estudantes ao longo dos anos por meio de diferentes instâncias internas universitárias, como comissões de graduação, avaliações de curso, reuniões de reformulação, plenárias etc., somado às pesquisas científicas no campo da Sociologia, com ênfase na Educação, que nos debruçamos sobre os currículos e passamos a perguntar, especialmente, sobre uma bibliografia nas Ciências Sociais representada por mulheres e sobre o modo como elas abordavam gênero e raça. Falo, agora, especialmente, do currículo de Pedagogia da Unicamp, porque foi ali que aprendi a reconhecer o que estava dentro e a sonhar com o que está de fora, seguindo aqui os passos de Raymond Williams, autor que me ensina sobre educação democrática e sonhos há tantos anos.

Mas, antes de tratar do que está fora, vou apresentar o que está dentro do último catálogo do curso de graduação em Pedagogia da Unicamp (2026). Ele é fruto de vários esforços e inúmeras tentativas de reformulação curricular, incluindo a de que participei como coordenador, mas nele, por exemplo, as clássicas do pensamento social, como Harriet Martineau, continuam fora, conforme pretendo discutir, apoiando-me, inclusive, em minhas pesquisas atuais tanto sobre escritoras ausentes das histórias literárias quanto sobre o discurso público feminino na Psicanálise.

Mas, antes de prosseguir, destaco outro ponto: preciso reforçar que o contexto socioepistemológico que se impõe é marcado pelo incremento das pesquisas sobre o pensamento social das mulheres na História, na Literatura, nas Ciências Sociais etc., no passado e no presente, o que impacta, consequentemente, a produção bibliográfica e, assim, a circulação de pensadoras mulheres pelo país. Graças, portanto, a um mercado editorial consolidado no Brasil, vem ocorrendo o acesso a novas bibliografias, sendo um bom exemplo a difusão do livro Clássicas do pensamento social: mulheres e feminismos no século XIX (2021). Outro elemento de contexto nas reformulações curriculares é o Conselho Estadual de Educação, que se impõe como instância normativa, deliberativa e consultiva do sistema educacional público e privado no estado de São Paulo. Não vou fazer considerações críticas, mas apenas indicar esses pontos relacionados à pesquisa-edição e às políticas educacionais que impactam reformas curriculares para enfatizar agora o que está dentro de um currículo específico e o que está fora no que concerne ao debate de raça e gênero e deveria entrar como expressão de uma elaboração onírica minha.[1]

No catálogo, a disciplina Sociologia Geral tem como código, a sigla EP 140, e é uma disciplina de 60 horas de atividades teóricas, divididas em aulas semanais de 4 horas, para o curso Integral e Noturno da Pedagogia da Unicamp. O que está dentro do currículo está apoiado na seguinte ementa:

[Sociologia Geral] Analisa as principais teorias sociológicas que procuram indagar e explicar a sociedade moderna e as mudanças observadas na sociedade contemporânea. Introduz categorias analíticas que informam e expressam o pensamento de seus fundadores Karl Marx, Émile Durkheim e Max Weber, autores considerados clássicos em sociologia porque participaram da construção deste campo científico, por meio de interpretações e visões de mundo diversas, frequentemente antagônicas. Discute questões sociais observadas no presente à luz das teorias analisadas.

Dentro dessas três unidades do pensamento sociológico clássico — Marx, Durkheim e Weber —, estudamos, principalmente, obras como O Manifesto do Partido Comunista, As regras do método sociológico e A ética protestante e o espírito do capitalismo, respectivamente, bem como seguimos uma bibliografia complementar para cada um deles. Para dar apenas um exemplo, em se tratando de Durkheim, lemos, por exemplo os trabalhos de Heloísa Rodrigues Fernandes (“Dispositivo de moralização laica e sintoma social dominante: um estudo de educação moral em Émile Durkheim”) (Fernandes, 1990), de Barbara Freitag (“A questão da moralidade: da razão prática de Kant à ética discursiva de Habermas”) (Freitag, 1989), de Viviane Isambert-Jamati (“Para onde vai a sociologia da educação na França?”) (Isambert-Jamati, 1986), de Steven Lukes (“Bases para a interpretação de Durkheim”) (Lukes, 1977) e de Émile Zola (A besta humana).[2]

Em uma rápida visada sobre o catálogo disponível no site da Unicamp, no que concerne à obra de Durkheim, vemos a indicação de referências nacionais do pensamento social brasileiro se debruçando sobre o sociólogo francês, especialmente, a produção de Heloísa Rodrigues Fernandes. Nas “bionotas” da Sociedade Brasileira de Sociologia,[3] há uma bela síntese da vida e obra de Heloísa Fernandes, que serve de referência aqui para destacar as importantes contribuições da autora para o Pensamento Social brasileiro, especialmente, nos trabalhos em que propõe uma articulação com outros campos temáticos, como a Psicanálise. Como uma das tarefas da Sociologia como ciência foi sempre tentar estabelecer unidades com outros campos específicos, essa referência à Psicanálise é oportuna e abre espaço para destacarmos as contribuições também da Literatura para o ensino de Sociologia; inclusive, no catálogo do curso de Pedagogia da Unicamp, temos a presença de Zola como referência.

Como vemos, o que está dentro do currículo merece ser valorizado, mas agora trata-se de avaliar o que tem sido deixado de fora, tanto no campo da Sociologia quanto em campos específicos, como nos dois supracitados: temos visto que há muitas contribuições para as Ciências Sociais que estão fora do currículo, dentro da intersecção gênero e raça, e que mobilizam sociologicamente outros campos temáticos. Entre Sociologia e Psicanálise, o currículo de Sociologia Geral da Pedagogia tem deixado de fora as contribuições de Virginia Leone Bicudo (1910-2003) sobre as questões femininas e raciais; ademais, no que se refere à Sociologia e à Literatura, continua ausentando-se o conjunto de escritoras brasileiras que ofereceram em sua ficção uma significativa representação da sociedade brasileira patriarcal, só que pela visão feminina de mundo, como aconteceu com Délia, pseudônimo de Maria Benedita Câmara Bormann (1853-1895). Apresento essas duas referências, uma da Psicanálise e outra da Literatura, pois, a despeito das diferentes temporalidades e dos campos de atuação, há uma afinidade eletiva entre Bicudo e Délia por meio da discussão da Psicanálise, das questões raciais, do papel da mulher na sociedade brasileira etc., o que poderia enriquecer demasiadamente o ensino de Sociologia para pedagogas e pedagogos. 

O que está fora também são as autoras clássicas do Pensamento Social oitocentista. Em minhas classes de Sociologia Geral, tenho apresentado, particularmente, os estudos de Harriet Martineau (1802-1876), especialmente, o debate sobre “Serviço doméstico”, de 1838, para introduzir o tema das disputas entre as diferentes classes sociais. Ela — assim como Anna Julia Cooper (1858-1964), Charlotte Perkins Gilman (1860-1935), entre outras — está fora do currículo de Sociologia Geral.  

Uma reformulação curricular que enfatize Educação e Pensamento Social é uma tarefa árdua de revisão de conteúdos e pesquisa rigorosa do que é deixado de fora, como destacou Raymond Williams, que foi quem nos ajudou a introduzir este assunto sobre currículo e pensamento social. Williams, antes de ser professor na Universidade de Cambridge, foi tutor de adultos dentro de um projeto educacional entre a Universidade de Oxford e a Workers’ Educational Association, e, durante 15 anos, contou com outros tutores e estudantes-trabalhadores para repensar os processos de aprendizagem por meio dos currículos escolares. É essa experiência que aparece em destaque no excerto que abre esta postagem e que serve agora de inspiração para encerrar esta discussão com a seguinte consideração final: planejar novamente um currículo universitário de modo que ele seja relevante para as gerações do presente e do futuro é um desafio constante, especialmente, porque, em meio às mudanças sociais, tentamos priorizar uma educação humanística de qualidade. Além de conseguir incluir cada vez mais as contribuições femininas na disciplina de Sociologia Geral, temos que ensinar, entre outros pontos, sobre as novas tecnologias e a maneira como hoje as pessoas conversam ou seguem determinadas convenções apoiadas no mundo digital. Isso é outro assunto, mas não menos importante, diante de um projeto pedagógico-crítico que permanece o mesmo: lutar por uma educação majoritariamente democrática, que não deixa de ser outro de nossos sonhos, combinado com o que estou sonhando sobre o currículo de Educação e Pensamento Social. 


Notas

[1] Neste momento em que escrevo, o currículo do curso de Pedagogia passa por uma nova e importante reformulação, que merece todo reconhecimento. Deste processo, não participei como coordenador, pois minha gestão se encerrou em 2020, mas pude acompanhá-lo pelas reuniões de departamento e observar as mudanças significativas realizadas. Mas elas não fazem parte deste texto, porque a reformulação ainda está em andamento.

[2] Para consultar o currículo completo com ênfase na disciplina Sociologia Geral, ver: https://www.dac.unicamp.br/sistemas/catalogos/grad/catalogo2026/disciplinas/ep.html#disc-ep140. Acesso em: mar. 2026.

[3] Ver: https://sbsociologia.com.br/project/heloisa-rodrigues-fernandes/. Acesso em: mar. 2026.

Referências

ADORNO, Theodor W. [1968]. (2008). Introdução à Sociologia. São Paulo: Editora Unesp.

FERNANDES, Rodrigues Heloísa. (1990). “Um século à espera das regras. Tempo Social. Revista de Sociologia, USP, vol. 2, no. 2, p. 165-186.

FREITAG, Barbara. (1989). “A questão da moralidade: da razão prática de Kant à ética discursiva de Habermas”. Tempo Social. Revista de Sociologia, USP, São Paulo, v.1.n. 2, p. 7-44, 2º semestre.

ISAMBERT-JAMATI, Viviane. (1986). “Para onde vai a sociologia da educação na França?”. Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos. Brasília, no. 157, p. 538-539.

LUKES, Steven. (1977). “Bases para a interpretação de Durkheim” In: COHN, Gabriel (org.) (1977). Sociologia – para ler os clássicos. Rio de Janeiro: Livros técnicos e científicos, p. 15-46.

PAIXÃO, Alexandro Henrique. (2025). Raymond Williams e Educação. Campinas: Editora da Unicamp.

TOSTE, Verônica. (2021). Clássicas do pensamento social: mulheres e feminismos no século XIX. Organização e comentários de Verônica Toste e Bila Sorj. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos.

WILLIAMS, Raymond [1989]. (2015). “A cultura é algo comum”. In: WILLIAMS, Raymond. Recursos da esperança: cultura, democracia, socialismo. São Paulo: Editora Unesp.

Sites

Catálogo de Graduação do Curso de Pedagogia da Unicamp, disciplina Sociologia Geral: https://www.dac.unicamp.br/sistemas/catalogos/grad/catalogo2026/disciplinas/ep.html#disc-ep140

Bionotas da Sociedade Brasileira de Sociologia: https://sbsociologia.com.br/project/heloisa-rodrigues-fernandes/

Sobre o autor

Alexandro Paixão é professor livre docente de Sociologia da área de Pensamento Social e Educação, do Departamento de Ciências Sociais na Educação e Programa de Pós-Graduação em Educação, Faculdade de Educação, na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).