Aprendizados amazônicos é a segunda parte da BVPS Coletâneas em homenagem aos 130 anos de Mário de Andrade, que parece ter atentado pioneiramente para a dimensão cultural da maior floresta tropical do mundo, habitada e cultivada por povos indígenas e outros não “humanos”, estes que chamamos “animais”, em interação com o ambiente, desde milhares de anos antes da chegada dos colonizadores europeus brancos. Mais do que isso, a partir de suas viagens à Amazônia, reconheceu nos povos indígenas formas de resistência ao projeto antropocêntrico de capitalismo mais predatório, que hoje visa abrir suas terras para o gado, a soja e a mineração, convertendo-as em mercadoria, e que levou o planeta à emergência climática e à sexta extinção em massa de espécies.
Neste post, Raúl Antelo (UFSC) analisa o repertório de leituras que informaram o etnógrafo da cultura popular dividido entre sentir e pensar o Brasil e que, ao descobrir americanismos originais que nos aproximam mais da Ásia e da África do Norte, questiona o colonialismo e afirma a particularidade latino-americana, antecipando o conceito de Terceiro Mundo e subdesenvolvimento.
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Em 1927, contemporaneamente à primeira “Viagem etnografica”, Mário escreve a rapsódia do anti-herói Macunaíma, construída a partir dos dados fornecidos pela leitura de Koch-Grünberg que realizara no ano anterior. Não analisa ainda o material recolhido durante a viagem: permanece o visitante-testemunha, que só posteriormente examinará o material do ponto de vista do pesquisador de gabinete. A tônica da segunda viagem etnográfica mostrará a mudança: o visitante e o pesquisador são uma mesma pessoa que, voltando a São Paulo, sente a necessidade de aprofundar os estudos antropológicos, para melhor analisar o material levantado durante a excursão.
De volta do Nordeste, em 1929, Mário começa o estudo histórico e sociológico do Brasil. É a época em que lê Manuel Bonfim, de quem desprezará o conceito de pátria desenvolvido em O Brasil na América. É o período em que recebe algumas revistas pertinentes para sua pesquisa: 30-30!, órgão dos pintores do México em julho de 1928; Boletin Titikaka, de circulação continental, editado na cidade peruana de Puno (apenas um número, em homenagem a José Carlos Mariátegui). É literatura que abona uma fase empenhada no ajustamento ideológico entre cristianismo e marxismo.
De fato, Mário de Andrade sente a carência de instrumental teórico; porém o próprio conhecimento possível para um intelectual do subdesenvolvimento nos anos 1930 não permitia realizar uma nítida divisão de campos entre os estudos históricos e os sociológicos, entre a análise mitológica e a especificamente antropológica. Através das leituras se repetirá o dilaceramento entre o homem que vê e sente e o intelectual que manipula e instrumenta. Nessa fase, o escritor brasileiro lê Tylor, que lhe fornece os rudimentos de terminologia antropológica. A partir da visão evolucionista do próprio Tylor, detecta-se em Mário o fenômeno da dialética do interno e do externo ao mito. É bom lembrar que em Primitive society (1871), o antropólogo inglês traça uma linha divisória em relação ao mito, aquém da qual é possível manter uma atitude de simpatia, mas que exige ser ultrapassada, se o intuito com que a ele nos dirigimos pretende ser científico. Este fato revela que, de um modo geral, até 1930, vigoraram, no campo da antropologia, dois princípios herdados do evolucionismo, quais sejam: a necessidade de estabelecer uma tipologia e a de determinar a morfologia do objeto de estudo. Ambos os princípios não faziam senão garantir o reducionismo cientificista pelo qual o saber se tornava conhecimento científico e a diversidade fenomênica era homogeneizada na unidade tipológica. Em virtude dessa redução, a antropologia ganhava estatuto científico e se tornava aliada no controle imperialista.
Mas, se até 1930, a pesquisa de campo estava separada da análise de gabinete (e, nesse sentido, tanto Frazer como Lévy-Brühl, mestres de Mário, pecam por essa limitação), o funcionalismo posterior tentará corrigir o impasse. Assim, a antropologia incapaz ainda de ajudar na libertação dos oprimidos, aos quais chama de primitivos, pelo menos não mais pretende ser considerada como aliada civilizatória.
Nesses anos de indefinição metodológica e confusão entre saber e conhecer, não só o antropólogo se julgava isento da experiência direta de campo, como, inversamente, o turista diletante podia ser tomado como teórico.
São os anos das viagens americanas de Waldo Frank, do conde Hermann Keyserling, do filósofo espanhol Ortega y Gasset e do francês André Siegfried.
Em 1928, o primeiro texto que Mário escreve para a série sobre literatura argentina evidencia a leitura de Volk und Kultur Lateinamerikas do Dr. Wilhelm Mann, impresso no ano anterior. Desse volume, Mário retirara certos conceitos — pan-americanismo, ibero-americanismo, espírito anglo-saxão — que auxiliaram na argumentação sobre a inexistência de unidade continental desenvolvida no artigo para o Diário Nacional.
Em meados de 1929, é a vez do Conde Keyserling percorrer a América do Sul. A 26 de junho, a Revista de Antropofagia dá destaque a dois acontecimentos culturais: a exposição de Tarsila no Rio e a “viagem filosófica” do conde. “Outro grande acontecimento é a vinda do notável pensador Hermann Keyserling a nosso país. O autor do Mundo que nasce já se acha em Buenos Aires e demorar-se-á na América do Sul alguns meses. “Tarsila é a afirmação dos caminhos novos, Keyserling o grandioso desespero ocidental e a ânsia de renovamento de que só a América natural possui a chave”.
Como era previsível, este alemão, dono da chave da América natural, não entrou pela porta dos fundos. Pelo contrário, gozou do beneplácito das elites intelectuais europeizadas e das platéias sul-americanas que se curvaram diante do exotismo do conde-filósofo.
Como resultado da viagem, Keyserling escreveu as Meditations Sul-Américaines, editadas em 1932. Segundo um dos seus críticos, José Luis Romero, nelas passa de um “sul-americanismo exterior” — a América como reflexo da economia capitalista internacional, a arte espanhola e o romance francês — para um conceito de “sul-americanismo essencial”.
Na verdade, trata-se de um essencialismo telúrico e não filosófico, uma vez que para Keyserling a América é o continente do Terceiro Dia da Criação, imerso ainda na vida originária. A “gana”, a delicadeza e a ordem emocional definiriam essa vida originária americana. O sul-americanismo seria, em consequência, medo original que teria alcançado enorme delicadeza de sentimentos. Desta forma, a captação sensível da natureza geográfica e humana da América serve ao pensador alemão como ponto de partida para uma especulação abstrata sobre a visão de mundo do homem americano.
Ainda em 1932, Mário de Andrade considera válidas as propostas de Keyserling e chega a querer combiná-las com as leituras de marxismo realizadas por aqueles anos.
Das Méditations retira elementos que entrarão na composição de Na pancada do ganzá: a religiosidade popular, o cantador (Chico Antônio) como expressão da indolência tropical; a política latino-americana como obra dos caudilhos e não das elites. Em última análise, não lhe repugna o raciocínio do alemão visto que o interesse de Mário pelo marxismo esbarrava em sua resistência ao materialismo.
Em Keyserling, defrontamo-nos com certos tópicos que nutriam o discurso das classes dominantes — a preguiça, por exemplo — não mais tratados do ponto de vista cientificista do evolucionismo vitoriano. Daí em diante, esses temas serão abordados de um ponto de vista mítico, que descambará posteriormente para uma visão amena em termos de arquétipos universais. A razão não cabe à América, presa ao pensamento mítico e selvagem. Em virtude desse fatalismo, não há contradição em descobrir traços animais em certos comportamentos do homem latino-americano. Afinal, o entusiasmo é próprio da anaconda e da serpente emplumada que seduzirá a D. H. Lawrence no México.
“L’expression impénetrable, sourde, aveugle, mais en méme temps aux aguét et grosse de menaces que l’on voit & bienplus de gens qu’il ne peut y en avoir de méchants, reflete le regard des batraciens et des reptiles de ce continent” (Keyserling, 1932: 32).
Mário de Andrade grifa essa frase de Keyserling mesmo a despeito da gritante contradição que se estabelece entre a visão preconceituosa, embora “filosófica” do turista alemão, e a teimosa pesquisa de uma consciência nacional que vem realizando a partir do material folclórico. Ao menos para nós, o conde não mais esconde a carga ideológica de sua bagagem.
Até para o próprio Mário, as teorias sensitivas do filósofo chegam a ser insatisfatórias. Em O turista aprendiz, texto cuja realização definitiva é de 1943, há uma parte do diário, segunda parcela do dia 22 de julho, em nota manuscrita apensa aos originais datilografados, na qual o autor retoma o tópico da falta de civilização do brasileiro, vendo-a como causa da “dor” sul-americana do indivíduo. Observa-se, porém, uma mudança em relação aos textos de 25/29 que consiste na paródia do discurso de Keyserling, apaixonado defensor da condição colonial do sul-americano como força criadora original. Veja-se, inclusive, outra diferença interessante em relação ao conceito de primitivo: se, na década de 1920, todo americano era englobado na categoria de primitivo, agora só o latino-americano merece essa designação. Transcrevo a passagem, por considerá-la sintomática da mudança de ponto de vista. Nela, o autor parece dirigir-se ao conde Keyserling quando se lembra “de uma amiga judia francesa comunista que me crible de léttres sobre a infelicidade social dela, dos operários etc. Me lembrei de escrever para ela uma carta amazônica, contando esta ‘dor’ sul-americana do indivíduo. Sim eles têm a dor teórica, social, mas ninguém não imagina o que é esta dor miúda, de incapacidade realizadora do ser moral, que me deslumbre e afete. E dar o fim desta carta”.
A vossa impiedade é uma impiedade perfeitamente de bico de pássaro, essa parte dura, irresistível e desacomodada que torna os pássaros menos pássaros. Mas com essa única exceção da vossa impiedosa curiosidade, a Senhora é pluma, é pena de ave. Eu me imaginava de ver a Senhora um desses altos oiseaux de passage. . . Agora os vossos olhos estão salvos e é tão feliz de vos saber assim, alta, nas alturas, vendo com a vossa fria acuidade européia nos gentilles âmes imparfaites. N’ avez vous pas senti nos peurs américaines, et nos impossibles? O que é Hitler, Deladier, a impotência, a clarividência criminosa. Os vossos operários europeus? Eles não sofrem não, eles teorizam sobre o sofrimento. A dor, a imensa e sagrada dor do irreconciliável humano, sempre imaginei que ela viajara na primeira vela de Colombo e vive aqui. Essa dor não é de ser operário, que não é de ser intelectual, que independe de classes e de políticas, de aventureiros Hitlers e de covardes Chamberlains, a dor dos irreconciliáveis vive aqui. E se a Senhora não sente senão liens muito frágeis com esta América em que a Senhora desviveu três anos, é que lhe falta a puissance des valeurs éternelles. Vous n’avez que pensée, pensée grecque, pensée latine, clarté, soleil et pauvre nettété. Je ne peux pas avoir pitié de vous, parce que vous êtes la plus forte. Je ne peux que vous insulter très doucement, vous plaçant du côté de la Minerve d’aurain. Moi, je m’enfous les vertes nébuleuses forestières. Mais je me danse plus au chant rustique de Pan. Je me débats sous les mains encore trop puissantes de Diane. Mais, vraiment, elle exagère sa vertu.
‘Três doucement’,
“A noção de respeito diante de qualquer europeu”.
“Nós somos velhos, muito velhos, nós brasileiros, diante de um norteamericano”.
Em 1929, a América Latina não sofreu apenas a visita de Keyserling. Também Ortega y Gasset e Waldo Frank aqui estiveram. A visita do espanhol produziu alguns textos jornalísticos — “La pampa… promesas”, “El hombre a la defensiva”, “Meditación del pueblo joven” — enquanto o norte-americano nos dirigia uma Primeira mensagem à América Hispânica, em 1930. Nessa área de conferências, Frank revela um modo de expressão vitalista, quando não irracionalista, falta de precisão conceitual e um tom entre afetivo e profético, na opinião de César Fernández Moreno (1967). Embora desconhecendo essa obra e a que continuou mostrando o interesse de Frank pela América hispânica (1932), Mário de Andrade pôde entrar em contato com o escritor, através de suas publicações em revistas francesas e brasileiras: uma nota sobre Cuba para Espírito Novo, a revista de Aníbal Machado e uma reportagem a Carlos Lacerda, publicada em Rumo, quando de sua visita em 1934.
Mas só nesse ano, um dos viajantes desperta o interesse crítico do escritor brasileiro. Com efeito, em 1934, André Siegfried publica, em Paris, seu manual Amérique Latine que Mário recenseará para o Boletim de Ariel, do Rio de Janeiro. No extenso comentário, escrito a lápis nas folhas de ante-rosto do volume, que esboça o texto jornalístico definitivo, o escritor percebe o perigo de cair num desvio que mistifica a realidade, qual seja, reduzir a pesquisa a “uma estatística geral e um bocado simplista, que não só negligencia as variantes, mas pela necessidade de generalização não penetra jamais a profundeza mas macaqueia a profundeza por ser esquemática e por isso um tanto mística, um tanto cabalística…”.
É preciso lembrar, neste ponto, que em 1934, apesar da antiga admiração pela “profundeza” de Keyserling, Mário dirige seus esforços de compreensão na linha do marxismo incipiente, tomando o “individualismo” como pólo negativo no seu empenho de conhecimento. Não obstante, rechaça o conceito de América Latina por entender que não existe unidade continental. Aliás, não há nisso novidade alguma, pois a argumentação continua a mesma de 1928, quando lançara mão de Mann; porém agora, Mário se sente capacitado para estabelecer as diferenças regionais que, a rigor, não invalidam o conceito político de unidade latino-americana.
No comentário, Mário de Andrade critica tanto a assimilação da América Latina ao americanismo esbelto “no sentido de ianquismo” quanto ao latinismo mediterrâneo e ibérico. E diante da opção, acredita que a ligação que “nos converte ainda como psicologia, como moral, religião como entidade enfim, a Portugal e Espanha é o que estes países têm de propriamente ibérico e até mesmo de árabe (grifo meu) muito mais do que o que eles têm de latino e mediterrâneo.”
Repare-se que diante da impossibilidade de definir o que seja latino-americano surge a necessidade de emparelhar o conceito de asiático. Além disso, existe o fato de lidarmos com uma sociedade heterogênea, de difícil reunião em termos de nação. Assim sendo, para Mário torna-se tão impossível homologar um argentino a um mexicano quanto um mineiro a um nordestino.
Com esse raciocínio, Mário de Andrade está implicitamente admitindo que a colônia é uma unidade social em curso de transformação; mas, se, por um lado, admite a existência política de uma sociedade pluralista como o Brasil, enquanto federação, por outro lado estabelece um limite para seu raciocínio, ao julgar inviável uma sociedade global latino-americana. Precisamente um dos problemas que aparece com o processo de descolonização é o da mudança da magnitude das sociedades coloniais: organização das antigas parcelas coloniais em novos blocos políticos ou, em outras palavras, passagem das relações de tipo particularista para as de tipo universalista.
Aliás, numa primeira vista d’olhos, ao descobrir americanismos que são originais e próprios ou nos aproximam mais da Ásia e da África do Norte, Mário premonitoriamente usa o conceito de Terceiro Mundo, conceito que só há de se popularizar vinte anos mais tarde. Mas é preciso salientar que tal conceito, nesse contexto, carece ainda do caráter especificamente político com que se tornará público nos anos 1950. O autor faz referência à psicologia, à moral, à religião, à antropologia, enfim, mas separada da política; e, nessa ausência, encontra-se o limite conceitual da análise, mesmo assim, muito lúcida para a época e as circunstâncias.
Historicamente, Mário de Andrade é incapaz de chegar a uma síntese, pois sua época vive a contestação da ideologia colonialista. Se o afrancesamento cultural é a situação latino-americana até a segunda grande guerra, os intelectuais progressistas dessa fase se verão na necessidade de assumir a defesa apaixonada de pontos de vista que não são de chegada, mas de trânsito. É o que acontece, por exemplo, com os conceitos de negritude e indigenismo. Portanto, Mário força uma defesa da particularidade, como forma de se aproximar do universal: “Hoje Venezuela e Alemanha, Itália e Cuba se equiparam”. Note-se que embora o sentido das linhas seja “liberal” (antifascista), Mário não cita a Rússia. Lembre-se que em 1934, Mário acha que o mundo está atravessando o auge dos conflitos ideológicos e que a saída possível está no marxismo.[2]
No caso de Siegfried, o crítico restringe a noção de síntese política: “ou a síntese atingirá esse espírito mais compreensivo da contemporaneidade e poderá ser útil e expressiva ou terá que distinguir”.
Em última análise, ora a sociedade se conserva num estágio caracterizado por profundas diferenciações antropológicas, pelo tratamento desigual, pela submissão imposta aos grupos minoritários, traços que não fazem senão revelar a coação colonial, ora ela passa a reivindicar a modernidade possível: “os fenômenos são mais vastos ou então são regionais”.
Retoma, no mesmo texto, certos conceitos de primitivismo, mas agora um tanto diferentes do primitivismo de Clã do Jaboti. O primitivo latino-americano de 1934 adquire feições mais claramente políticas, pois “nada existe de mais caótico e insolúvel ou, pelo menos, indescritível que o primitivo”.
Cada dia menos, tal primitivismo pode ser considerado estético, pois, no contexto, ele abre uma brecha que permite situá-lo como algo muito próximo do conceito de subdesenvolvimento, apesar de incipiente e embrionário. Como mediação mítica ou momento que é necessário superar, a defesa da particularidade latino-americana firma-se pela recusa da supremacia europeia. Assim sendo, Mário qualifica a civilização burguesa, da qual a França é exemplo perfeito, mas não reduto exclusivo, como “uma civilização que já passou…”.
Notas
[1] Excerto publicado originalmente em Raúl Antelo, Na ilha de Marapatá: Mário de Andrade lê os hispano-americanos. São Paulo: Hucitec, 1986.
[2] “Conversa com Mário de Andrade”. Diário Carioca, Rio de Janeiro, 5 ago. 1934 (Recortes Mário de Andrade — IEB, USP).
Referências
FERNANDEZ MORENO, César. (1967). La realidad y los papeles. Madri: Aguilar.
KEYSERLING, Comte Hermann de. (1932). Méditations Sud-Américaines. Paris: Librairie Stock.