Simpósio BVPS | Essa tal classe média (VII)

No sétimo e último post do simpósio sobre classes médias no Brasil temos como convidadas/os André Salata (PUC-RS), Sabrina Parracho Sant’Anna (UFRRJ) e Sérgio Adorno (USP).

Organizado por Celi Scalon (UFRJ), André Botelho (UFRJ) e João Mello (PPGSA e NEPS/UFRJ), o simpósio ouviu ao todo 27 especialistas de diferentes áreas das ciências sociais, humanas e literaturas, bem como de várias especialidades dessas áreas, sobre a relevância e a atualidade do tema. O diálogo multidisciplinar entre especialistas e não especialistas em classes médias se mostrou potente nas trocas teóricas, históricas e empíricas. Temos, hoje, mais elementos para investigar suas multidimensionalidade e transversalidade.

Agradecemos a todas/as os/as participantes.

Para ler a apresentação escrita pelos coordenadores do simpósio, basta clicar aqui. Veja os posts anteriores clicando em: I, II, III, IV, V e VI.

Boa leitura!


Sobre as/os convidadas/os:

André Salata é professorde Sociologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Autor, entre outros, de 30 Anos de Democracia no Brasil: avanços e contradições (Org. 2018) e Classe Média Brasileira: posição social e identidade social (2016).

Sabrina Parracho Sant’Anna é professora de Sociologia da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Autora, entre outros, de Diálogos entre Arte e Sociologia: Leituras Contemporâneas (Org. 2022.) e Construindo a memória do futuro: uma análise da fundação do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (2011).

Sérgio Adorno é professor de Sociologia da Universidade de São Paulo. Autor, entre outros, de Os aprendizes do poder: o bacharelismo liberal na política brasileira (1988) e Violência, Polícia, Justiça e Punição – Desafios à segurança cidadã (Org. 2019).

1. O que a seu ver identifica/define uma pessoa de classe média? Esses elementos mudaram ou se mantiveram ao longo das últimas décadas?

André Salata: Classe média não é somente uma posição – ou um conjunto de posições – na dimensão econômica da estratificação, mas também uma formação social. Diz respeito ao perfil das pessoas com as quais você tem contato mais próximo, aos locais que frequenta, ao seu estilo de vida, à maneira como você se define e/ou é classificado por outros. Enquanto tal, os limites e fronteiras da classe média estão em constante negociação. O que quero dizer é que não há qualquer método ou ferramenta que nos permita definir a priori, objetivamente e com grande precisão, onde começa e onde termina a classe média, pois seus contornos e fronteiras simbólicas são objeto de disputa. É o que Pierre Bourdieu definia como o aspecto esquecido da luta de classes, que diz respeito justamente às lutas classificatórias para imprimir categorias em um espaço social que é complexo e multidimensional. Não à toa, há significativa variação, entre diferentes países, sobre quem faz ou não parte da classe média, sendo algumas sociedades mais restritivas que outras nesse aspecto.

Dito isso, do ponto de vista da posição econômica, tipicamente a classe média – ou as classes médias, como preferem alguns autores – é composta por aqueles que não são nem grandes proprietários e nem trabalhadores pouco ou não qualificados. Com efeito, sua posição e reprodução enquanto classe dependem não de grandes propriedades e nem exclusivamente da venda de sua força de trabalho, mas sim de suas credenciais educacionais – e, em menor medida, da pequena/média propriedade. São as credenciais educacionais que permite(m) à(s) classe(s) média(s) desfrutar(em) de uma situação mais confortável no mercado de trabalho, assim como garantir(em) a reprodução de sua situação de classe através das gerações seguintes. Ainda assim, persiste a questão colocada no parágrafo anterior. Por exemplo, um trabalhador do setor de serviços com alguma qualificação, um atendente do setor de telemarketing, ou um empregado de escritório com qualificação mediana, fazem ou não parte da classe média? Não há resposta definitiva para tais questões.

Sobre possíveis mudanças nas últimas décadas, comento na resposta seguinte.  

Sabrina Parracho Sant’Anna: O debate a respeito da definição de classes sociais é, certamente, longo e pouco consensual. No entanto, há muitos anos, uma espécie de lugar-comum domina o debate público, resolvendo o problema ao conceituar as classes médias a partir das categorias do IBGE de acesso à renda e definindo-as como as classes intermediárias que se conceituam pelo acesso econômico a padrões de consumo, serviços e, eventualmente, direitos. Em meados dos anos 2000, e, sobretudo a partir de Marcelo Neri, o debate sociológico esteve amplamente centrado na compreensão dos impactos de políticas de distribuição de renda que permitiram redução de pobreza e ampliação da faixa intermediária da população brasileira naquele período.[1] Por um lado, a expansão da chamada “classe C” ou “nova classe média” pautou a esfera pública nas primeiras décadas do século XXI. Por outro lado, a partir das crises política e econômica que assolaram o país desde 2016 e foram agravadas pela pandemia de 2020, os debates têm salientado a instabilidade e vulnerabilidade dessa parcela da população brasileira. Movimentos descendentes, o crescimento da pobreza e da extrema pobreza foram objeto de intensas discussões em anos mais recentes.

No entanto, há tempos é também difícil acreditar em classes sociais homogêneas. Cabe, portanto, chamar a atenção para as frações de classe e outros componentes que complexificam o conceito abrangente de classe média. Nesse sentido, a reflexão sobre as camadas médias no Brasil contemporâneo deve necessariamente se pautar por outros elementos que compõem o capital global desses estratos e, nesse caso, cabe incluir, como já salientou Bourdieu, a distribuição do capital escolar que, nas últimas décadas, também passou por alterações significativas no país. Não é, portanto, acessório salientar que, segundo a PNAD, entre 1995 e 2015 o número de matrículas na graduação saltou de 6,8% para 21,3% da população de jovens de 18 a 24 anos. O número é tanto mais significativo quanto se verifica que a participação do quinto mais rico da população brasileira no corpo discente das universidades caiu de 75% em 1995 para 39% em 2015[2], demonstrando aumento relativo importante da participação de agentes oriundos de camadas populares no ensino superior. Se levarmos em consideração as políticas afirmativas que ordenaram grande parte dessa expansão, os efeitos são realmente sem precedentes. Gostaria, portanto, de salientar que a transformação da composição da estrutura de capital das classes médias tem alterado as mais diversas esferas da vida social brasileira, dando origem a transformações nos movimentos sociais, na produção do saber e certamente na produção de cultura, que é meu interesse específico.

Sérgio Adorno: Como o próprio nome sugere, classes médias definem grupos de pessoas que se situam em posições intermediárias nas hierarquias sociais. Compreendem grupos de pessoas caracterizadas por heterogeneidade, compondo mesmo um degradê interno. Reúnem pessoas profissionalizadas e semiqualificadas, profissionais liberais, professores, trabalhadores da burocracia civil e governamental, pequenos comerciantes e trabalhadores dos diferentes setores de serviços, pequenos proprietários no campo e nas cidades, pequenos empresários, técnicos de distintas especialidades. Concentram pessoas dedicadas às ocupações que auferem rendas médias, digamos algo em torno de 5 e 10 salários mínimos.

Grande parte é proprietária de suas habitações, mas parcelas substantivas dependem de aluguel. Habitam bairros com infraestrutura urbana satisfatória, embora bastante desiguais quando comparados entre si. Poucos dispõem de veículo próprio para seu transporte, a maioria é usuária de transporte público. Entre essas pessoas, predomina a escolaridade média, porém se destaca o crescimento das taxas de escolaridade superior. A posse de objetos e o acesso regular ao mercado de consumo são tomados como símbolos de pertencimento.

Ainda que possa variar, pessoas identificadas como classes médias tendem a compartilhar os mesmos gostos relativamente ao vestuário, ao corte de cabelo, aos padrões gastronômicos, aos gostos quanto ao consumo de produtos da cultura de massa como leituras, estilos musicais, gêneros de filmes, espetáculos, exposições etc. Tendem a ser conservadores em termos comportamentais e em termos político-ideológicos. Mas, aqui também, as classes médias revelam suas ambiguidades e paradoxos.

Em termos comportamentais, muitos identificados como classes médias revelam reservas quanto a temas como aborto, casamento inter-racial, população LGBTQI+. No entanto, reconhecem a existência de casos em suas famílias, com os quais convivem. Em termos políticos, evitam polarizações e com frequência se apresentam como de centro, críticos da esquerda. Aceitam os direitos humanos, exceto para bandidos e delinquentes.

O cenário que busquei traçar, com imprecisões certamente, já contempla mudanças recentes e em curso. Se tivesse que identificar algumas das forças de mudança, mencionaria: mudanças no mercado de trabalho, o impacto das novas tecnologias na vida cotidiana, a maior presença de mulheres no mercado de trabalho alterando as relações tradicionais na família nuclear, as novas configurações da juventude em termos de qualificação profissional e ocupacional, em termos de sexualidade, em termos de vínculos com a política e a cultura e também a emergência de novas masculinidades.

2. Como o tema aparece no seu campo de pesquisa e qual a relevância dele para os fenômenos que estuda?

André Salata: No ano de 2008 eu estava fazendo mestrado no Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia da UFRJ, orientado pela professora Celi Scalon. Na época eu trabalhava com desigualdades educacionais, e desde a graduação estive inserido em pesquisas sobre estratificação e desigualdades sociais. Naquele ano, o jornal O Globo publicou uma manchete de capa, com base em dados de um estudo da FGV-Social – coordenado pelo professor Marcelo Neri – que dizia algo como: “Brasil é um país de classe média”. Confesso que foi um choque, para um sociólogo, ler aquela manchete. Simplesmente não era condizente com a maneira como um sociólogo enxergava a sociedade brasileira, a despeito do momento econômico positivo que o país atravessava naquela época. Junto com Celi Scalon, decidi que minha tese de doutorado seria sobre a então chamada “nova classe média brasileira”.

A definição de classe média oferecida pelo trabalho da FGV, com ampla repercussão na mídia, e que chegou inclusive a ser utilizada no discurso oficial do governo federal, era simplesmente de uma camada estatisticamente intermediária. Ou seja, era classe média quem estivesse próximo do meio da distribuição de renda. O argumento que desenvolvi no meu trabalho de tese, no entanto, elaborado a partir da análise de dados quanti e qualitativos, é que para ser classe média no Brasil – compreendendo-a não somente como posição econômica, mas principalmente como formação social – é preciso estar muito próximo do topo da pirâmide, entre os 15% mais ricos ao menos. Nossa classe média está muito longe de ser intermediária – como acontece em todos os países que tenho conhecimento, mas com variações relevantes sobre a quão próxima do topo da pirâmide está aquela classe. Do ponto de vista sociológico, a chamada nova classe média brasileira representava uma ascensão econômica de parcela das classes que vivem do trabalho no país. Mas estava longe de representar mobilidade de classe e ingresso na classe média.

Aquela foi uma época em que as disputas classificatórias em torno dos contornos que definem a classe média estavam muito evidentes. Era algo que as pessoas pensavam e comentavam. Em minha tese, tive a oportunidade de examinar esse fenômeno de perto, e fiquei muito surpreso com a relevância do pertencimento à classe média para aquelas pessoas que estavam mais próximas do topo da pirâmide, como médicos, engenheiros, advogados etc. E também com a força das barreiras simbólicas que garantiam elevado grau de fechamento social àquela classe. Simplesmente não bastava ascensão econômica momentânea para entrar na classe média.

Desde então meu olhar esteve atento à classe média, mesmo quando focando em outros temas dentro do campo da estratificação e desigualdades. Conforme argumento na resposta subsequente, não é possível pensar a dinâmica social e política do Brasil sem estar atento à(s) classe(s) média(s).

Sabrina Parracho Sant’Anna: Do ponto de vista da Sociologia da Arte, alguns desses aspectos são especialmente importantes para processos recentes de mudança social tanto do ponto de vista das instituições de arte, como da forma artística. A esse respeito, o aumento do capital escolar na composição do capital global das camadas médias ascendentes parece ser aspecto que merece especial atenção.

Em diversas ocasiões, Maria Lucia Bueno chamou a atenção para a crescente relação entre a arte contemporânea e o ensino universitário. Segundo ela, desde a década de 1980, a participação da universidade na formação de artistas e críticos contribuiria para o fortalecimento do sistema de arte brasileiro, assim como havia ocorrido em outras experiências nacionais.[3] De fato, o fenômeno não é novo, nem exclusivo do Brasil ou mesmo das artes visuais. Eagleton já havia chamado a atenção para o deslocamento da crítica literária da esfera pública para as universidades, fenômeno que a transformara, no século XX, naquilo que o autor diagnosticou como “um punhado de indivíduos criticando mutuamente seus próprios livros”.[4] De fato, o processo de autonomização do sistema de arte, sua incorporação ao saber acadêmico, é muitas vezes associado à especialização espiritual de que falava Adorno, à separação da produção de cultura da esfera pública ou, como preferiria Eagleton, à perda da função social da crítica.

No entanto, ao coincidir com a expansão do acesso à universidade de camadas médias ascendentes, ao contrário do que diagnosticou Eagleton quanto à perda da função social da crítica de arte na academia, o que parece vir ocorrendo, no caso brasileiro, é surpreendentemente uma crescente politização da arte. É evidente que outros componentes têm poder explicativo importante nesse cenário e não caberia enumerá-los aqui. Contudo, acredito que posições de frações de classe cuja ascensão social se deve ao acesso ao capital escolar tem papel central nesse movimento, como procurarei argumentar a partir das questões a seguir.

Sérgio Adorno: O meu campo de pesquisa cobre temas e questões sobre violência e crime, graves violações de direitos humanos, justiça social e criminal, políticas de segurança pública, democracia e direitos humanos. Nesse campo, o tema aparece tanto de forma explícita quanto de forma sutil. Exemplo: quando se discute o medo da população diante do crescimento dos crimes e das diferentes formas de violência. Nessa discussão, as expressões de medo e insegurança traduzem de fato sentimentos coletivos que, em tese, encontram lugar em todas as classes sociais e estratos socioeconômicos. No entanto, eles parecem adquirir mais força e ênfase em pessoas identificadas com as classes médias.

Nestas, o significado do ter, da posse, da propriedade material são, como disse anteriormente, símbolos de pertencimento e reconhecimento sociais. O crime intervém justamente no modo de expressão desses sentimentos, colocando em perigo a garantia do ser e do pertencer. Cidadãos de outras classes também podem revelar idênticas manifestações, porém não parecem ser um traço tão distintivo e com tamanha força a ponto de reorganizar rotinas diárias, tais como onde ir, onde andar, por onde trafegar, ou comportamentos tais como evitar contatos com estranhos e desconhecidos.

Em termos sutis, as classes médias comparecem nas chamadas falas do crime. Por exemplo, é muito comum pessoas identificadas como pertencentes às classes médias dizerem “no meu bairro, há poucos crimes porque a maior parte dos moradores é trabalhador, chefe de família, que não gosta de se meter em confusão”. Além dos mais, acreditam que moram em bairros bem protegidos, com uma infraestrutura adequada, com vigilância da polícia, edifícios e residências com sistemas privados de segurança, iluminação, calcamento, pouca circulação de pessoas estranhas ou que não moram do local – exceto os trabalhadores domésticos que vem de longe para exercer suas ocupações nas moradias de famílias de classe média. Em outras palavras, aqui não tem pobre; portanto, não tem crime porque não moram criminosos.

3. Como você vê o protagonismo político desses grupos, especialmente, nas últimas duas décadas?

André Salata: Conforme argumentei nas respostas anteriores, a classe média no Brasil diz respeito a pessoas que conformam boa parte do topo da nossa pirâmide de rendimentos. Ou seja, são pessoas e famílias com considerável poder econômico. A classe média também é caracterizada por suas elevadas credenciais educacionais, tendo o acesso ao ensino superior como um de seus principais símbolos de pertencimento. Além disso, é na classe média que encontramos formadores de opinião como jornalistas, intelectuais, professores do ensino superior, pesquisadores, economistas, juristas etc. Ou seja, são pessoas e famílias com considerável poder simbólico também. Portanto, é um estrato que concentra um montante considerável dos recursos econômicos e, também, dos recursos culturais e simbólicos. Com efeito, não é aconselhável ignorar a classe média em qualquer análise mais profunda da dinâmica social e/ou política do país, conforme o professor Adalberto Cardoso também tem demonstrado em seus últimos livros.

O protagonismo político da(s) classe(s) média(s) no Brasil, desde as primeiras décadas do século XX, é evidente. O tenentismo, as manifestações de apoio e resistência à ditadura militar, as Diretas Já, as manifestações contrárias ao governo Collor, Junho de 2013 e as manifestações de 2015 contra o governo Dilma são episódios nos quais a participação da(s) classe(s) média(s) foi predominante e decisiva. Nos últimos anos, desde as manifestações de 2013, passando pelas manifestações de 2015 e pela eleição de Jair Bolsonaro, a chamada polarização – na falta de um termo mais preciso – que assistimos me parece ter sido, em grande medida, uma polarização entre diferentes frações da classe média. Dentro dessa grande formação social há setores mais progressistas e setores mais conservadores, ambos com aporte considerável de poder simbólico, cultural e econômico. Logo, são capazes de influenciar de modo muito significativo a agenda e o debate público. 

Sabrina Parracho Sant’Anna: A partir das discussões anteriores, acredito que as camadas intermediárias não são de modo algum homogêneas e, uma vez diagnosticado o processo de mudança social, do ponto de vista diacrônico, sua composição tem, é claro, diferentes origens. A título de simplificação, se poderia dizer que podem provir: de elites descendentes; de frações oriundas de classes médias tradicionais, cujo prestígio relativo pode se ver ou não ameaçado pela ampliação das classes emergentes; e de classes emergentes, cuja ascensão se deve ao aumento do capital econômico, escolar, ou ao somatório dos dois. As classes médias são, portanto, complexas e seria difícil mensurar o viés de seu protagonismo político. Os embates entre os interesses divergentes em seu interior não são, portanto, de modo algum desprezíveis e muitas vezes se traduzem como conflitos geracionais e percepção diferenciada sobre o acesso à renda e aos direitos.

Do ponto de vista da produção de arte, no entanto, são as classes médias que ascendem a partir do acesso ao capital escolar que parecem vir tendo crescente protagonismo, tanto nos processos de politização da arte, quanto na institucionalização de uma arte de mais a mais política. Embora talvez não sejam majoritários na sociedade brasileira, são os jovens oriundos de camadas populares e com capital escolar mais alto que o de seus pais que têm constituído novos padrões de comportamento, tensionando instituições por demandas a mais e a novos direitos e conseguindo visibilidade no restrito mundo da arte. Por um lado, alçados à classe média pelo capital escolar, sem que necessariamente corresponda imediata ascensão econômica, conformam uma leva de outsiders que precisam disputar e garantir uma nova posição social, mesmo que vulnerável e permanentemente ameaçada. Por outro lado, o acesso ao saber acadêmico, especialmente centrado na difusão das licenciaturas a partir dos programas de Expansão Universitária, tornou a produção de arte permeável aos saberes produzidos na academia, e especialmente aos debates críticos oriundos das humanidades em geral e das ciências sociais em particular. Esse é um debate que não se esgota aqui, mas gostaria de mencionar a importância desse processo na difusão de novas formas de arte e também de novas pautas de agenciamento político.

Sérgio Adorno: Como tentei sugerir anteriormente, o comportamento político desses grupos é essencialmente conservador. Em geral, votam em candidaturas de partidos de centro e centro direita. Em termos comportamentais, guardam reservas face ao turbilhão de mudanças que afetam identidades, gênero, sexualidades, casamento gay, relações entre “marido” e “mulher”, igualitarismo nas relações de trabalho e em outras instituições como escolas. No entanto, esse padrão não é rígido, ao menos em dois sentidos.

Primeiramente, porque há segmentos de classes médias que revelam escolarização crescente em sucessivas gerações; seus integrantes vivem experiências de maior igualitarismo entre gêneros e entre pais e filhos; o exercício da sexualidade é menos repressivo e mais livre de preconceitos e tabus; são em geral mais informados e atualizados em relação aos acontecimentos em seu entorno, na sociedade em que vivem e no universo social globalizado porque leem com mais frequência diferentes gêneros, jornais, semanários, artigos de opinião, crítica cultural, literatura, assim como cultivam artes em todos as suas expressões. Mesclam cultura popular e cultura de “elite” (nome inadequado certamente). Gostam de ouvir e dançar sambas como também ouvir detidos concertos de música “clássica” ou “erudita”. Em termos políticos, inclinam-se a votar em candidaturas de centro esquerda e de esquerda. Aceitam direitos humanos como fundamento de uma convivência social pacífica.

Em segundo lugar, porque mesmo as pessoas mais identificadas com postulados conservadores, manifestam hesitações. Criticam direitos humanos para bandidos. Mas, até recentemente, não defendiam tortura e maus-tratos contra quem quer que fosse, tampouco defendiam abertamente armamento da população. Tendem mesmo a preferir democracias às ditaduras, ainda que, em certas circunstâncias, “a ditadura” lhes pareça ser mais eficiente para garantir lei e ordem.

4. Como você vê a relação das classes médias com as políticas públicas (educação, saúde, habitação, por exemplo)?

André Salata: Dado o acúmulo de poder econômico, cultural e simbólico da classe média (ver resposta anterior), mantê-la inserida nas políticas públicas é fundamental para a qualidade e continuidade das mesmas. É o que alguns países com políticas públicas mais robustas procuram e conseguem fazer, desse modo evitando que: 1) as políticas públicas se tornem políticas somente para a população mais pobre, perdendo qualidade; 2) haja perda de legitimidade, entre os estratos mais elevados, da cobrança de impostos para a garantia de tais políticas. No Brasil, infelizmente, vejo a classe média muito afastada de políticas públicas centrais, como educação básica e saúde: pagam planos de saúde privados, seus filhos estudam em escolas privadas, e muitas vezes possuem planos de previdência complementares privados. Enquanto isso, os serviços públicos atendem majoritariamente às classes que vivem do trabalho, cujo poder de pressão por maior qualidade é extremamente reduzido. A classe média, por sua vez, se queixa – com certa razão – de ter que pagar por serviços privados e, além disso, impostos para garantir serviços públicos que não utilizam. No final o que temos é um círculo vicioso que vai degradando aos poucos, e cada vez mais, políticas públicas que a princípio deveriam atender a todos. Nesse sentido, elevar a qualidade das mesmas, a fim de atrair de volta ao menos parcela da classe média, seria fundamental.

Sabrina Parracho Sant’Anna: A conquista dos direitos do welfare state é histórica e precária. Se a derrocada da crença no Estado de Bem-Estar Social precedeu no Brasil a universalização de seus direitos, as classes médias parecem há muito se espremer entre o mercado e o Estado, assoladas pela vulnerabilidade da condição limítrofe que lhes é característica. O debate não é novo. No entanto, como procurei argumentar na questão anterior, os processos de embate desses atores na esfera pública parecem vir cada vez mais permeados da percepção de que o acesso aos direitos é enviesado pelas diferenças de raça, gênero e território, dando nova feição aos movimentos sociais. No caso da arte, é patente o modo como os debates políticos vêm de mais a mais alterando, não só o perfil dos jovens produtores de cultura, mas também os temas que acionam na produção da própria forma artística. Novas narrativas sobre memória e história nacional, identidade e diferença, têm sido, portanto, centrais no debate político, mas também na produção artística.

Sérgio Adorno: As classes médias são potenciais usuárias dos serviços proporcionados pelas políticas públicas. Embora expressivos segmentos das classes médias desfrutem de seguro saúde privado, frequentem estabelecimentos de ensino privado e prefiram pagar por serviços para evitar filas e longas demoras, suspeito que a maior parte dependa dessas políticas. Em passado recente, digamos há três ou quatro décadas, foram os grandes beneficiários das políticas habitacionais. Se valem do seguro saúde para procedimentos de rotina (exames, pequenas cirurgias), recorrem aos serviços públicos em procedimentos de maior complexidade, que envolvem grande dispêndio de recursos ou não contam com a aprovação de seguradoras. No que concerne à educação, é marcante sua maior presença nas universidades públicas, embora esse cenário esteja em processo de mudança. Esse apelo, por assim dizer “parcial” aos serviços sociais de proteção, ora próximos, ora distantes, traduz as ambiguidades, paradoxos e contradições do pertencimento às classes médias.

Notas

[1] NERI, Marcelo C. (2008). A Nova Classe Média. Rio de Janeiro: Editora FGV.

[2] SENKEVSKI, Adriano Souza. (2021). O acesso, ao inverso: desigualdades à sombra da expansão do ensino superior brasileiro, 1991-2020. Tese de Doutorado em Educação. Universidade de São Paulo, São Paulo.

[3] BUENO, Maria Lucia. (2016). A Condição de Artista Contemporâneo no Brasil – Entre a Universidade e o Mercado. In: QUEMIN, Alain & VILLAS BÔAS, Glaucia (orgs.). Arte e Vida Social – Pesquisas Recentes no Brasil e na França. Open Edition Press.

[4] EAGLETON, Terry. (1991). A Função Da Crítica. São Paulo: Martins Fontes.

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