
Na nova rodada de postagens da Ocupação Mulheres, Margarete dos Santos (UNEB) desconstrói o mito do “instinto materno” e reflete sobre a construção diária da maternidade adotiva. Em um tocante relato, a autora narra sua jornada ao se tornar mãe de duas meninas, enfrentando preconceitos e desafios, mas também descobrindo novas formas de amor e pertencimento. No centro da narrativa, surge a questão: afinal, quando nasce uma mãe?
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Quando nasce uma mãe?[1]
Por Margarete dos Santos (UNEB)
Tu vens, tu vens
Eu já escuto os teus sinais
(Alceu Valença, 1983)
À Taiane Nascimento dos Santos e
Rebeca Nascimento dos Santos,
que chegaram em uma manhã de domingo
e que a cada dia me ensinam a ser mãe
Há um mito secular de que toda mulher nasceu para ser mãe. Esse mito sustenta que o “instinto materno” faz parte da natureza feminina. Ao longo dos séculos, ele atravessou fronteiras geográficas e culturais, impondo sua presença nas sociedades contemporâneas e revelando como certas crenças ecoam através do tempo, impactando gerações de mulheres. Atualmente, esse mito vem perdendo força; os ventos que o sustentam têm se enfraquecido. Graças aos movimentos feministas e à luta incansável de inúmeras mulheres ao longo da história, percebe-se na sociedade um discurso mais brando e flexível, que, até certo ponto, legitima a recusa das mulheres em assumir o papel da maternidade.
Este texto não tem como objetivo debater a adesão ou não à maternidade, nem os impactos sociais, afetivos e psicológicos decorrentes dessa decisão. Aqui, procuro elaborar uma reflexão sobre a forma como a sociedade apresenta (ou impõe) a maternidade e o papel de ser mãe. Partindo da ideia de que não nascemos “preparadas” para a maternidade e de que esse não é um instinto natural, como muitos acreditam, proponho a seguinte reflexão: quando nasce uma mãe?
A partir deste ponto compartilho um pouco da minha experiência pessoal…
Há alguns anos, tomei a decisão de ser mãe. Nunca associei esse desejo ao ritual do casamento nem à ideia de ter um marido/pai para tornar a maternidade possível. Como gestar nunca foi um sonho — nove meses com um pequeno ser crescendo dentro de mim e as dores do parto nunca foram elementos motivadores —, descartei imediatamente a inseminação artificial. Queria ser mãe e concretizaria meu desejo por meio da adoção. O fim do doutorado marcou o momento em que me senti pronta para iniciar o processo. Foram meses de pesquisas, leituras e participação em grupos de apoio; era necessário me informar sobre o procedimento. Após esse período de estudo e análise, dei entrada no processo e, seis meses depois, me encontrava na fila do Sistema Nacional de Adoção (SNA). Meu perfil: queria ser mãe de duas meninas negras de até 7 anos.
Aprendi que existe um tabu em torno da adoção. Adotar não é caridade, não se trata de um gesto bonito nem de bondade (frases que ouço com muita frequência). A adoção diz respeito a oferecer voluntariamente uma família, a ser família para alguém. A sociedade, em seu julgamento implacável, coloca a adoção em xeque ao mesmo tempo em que a beatifica — a eterna contradição. Se, por um lado, adotar é visto como um gesto bonito de bondade, por outro, é um ato que exige coragem por parte de quem adota, pois envolve a audácia de trazer para o seio familiar um indivíduo desconhecido, com um passado considerado duvidoso e cujo “sangue” poderia ser ruim (carregado das supostas más influências dos genitores).
A adoção nos possibilita um formato de gestação diferente daquela que conhecemos. Aqueles nove meses de expectativa em torno da criança que está para chegar, no processo adotivo pode se transformar em dois, quatro, seis anos de espera. Um período tenso e cheio de ansiedade, permeado pelas incertezas sobre a criança que está por vir.
Durante dois anos, a ansiedade da espera me rondou. Meus pensamentos estavam constantemente voltados para minhas filhas. Com certa frequência, à noite, antes de dormir, eu olhava para o céu e rogava por elas. Nesses momentos, eu me perguntava onde elas estavam, como estavam sendo tratadas, se estavam sofrendo. Em minhas preces, pedia a Deus, aos deuses, aos Orixás, aos Encantados e às forças do Universo que as protegessem, onde quer que estivessem, que as livrassem da dor, da violência, do medo, e que a esperança de dias melhores fosse uma realidade em suas vidas. Meu coração em gestação se sentia aflito e, às vezes, triste diante da impotência da espera.
Foram meses de espera e inquietação, de impotência e ansiedade. E, inesperadamente, em uma manhã de fevereiro, pós-Carnaval, em um momento preguiçoso do fim das férias, meu telefone tocou e minha vida mudou para sempre! Depois de dois anos e vinte dias de espera, uma ligação da Vara da Infância e Adolescência anunciava o nascimento de minhas filhas para mim. Elas nasceram para mim com 4 e 6 anos e, literalmente, da noite para o dia, tudo mudou. A emoção ao telefone, o coração batendo forte, as lágrimas teimosas que insistiam em desaguar em choro, o “sim” para a assistente social sem nem pensar duas vezes. Meia hora depois, o recebimento por mensagem das primeiras fotos das minhas filhas: aqueles rostinhos tímidos, olhos vivos e sorrisos inocentes. Sim, eu me tornei mãe de duas lindas meninas negras.
Um ano se passou desde o dia em que o meu telefone tocou. Refletindo sobre o meu processo, me pergunto com frequência: quando em mim nasceu a mãe?
Apesar de toda a beleza da formação de uma família pela via da adoção, esse é um processo desafiador. Repentinamente, sua vida muda, mas, principalmente, muda a vida de duas crianças que se veem em um novo lar, em uma nova cidade, com pessoas desconhecidas, hábitos e rotinas diferentes — e isso é assustador. Apesar de todo o amor oferecido nesse processo, é preciso mencionar que há um alto preço a ser pago. De repente, minha vida mudou: desde a aproximação virtual, a ida para a cidade natal delas para a convivência, a vinda para Salvador, até a construção de um vínculo por meio do amor. Tudo era novo. A solidão de uma maternidade solo é assustadora; torna-se essencial a presença de uma rede de apoio, de pessoas com quem se possa contar nos momentos mais difíceis da adaptação.
Nem sempre o acolhimento das pessoas é como o esperado; ainda há muito preconceito. É palpável a pergunta que fica no ar: “Mas por que adotar? Você não pode ter filhos? Você demorou muito para decidir (no auge dos meus 45 anos) e agora não consegue mais engravidar? Você não casou e resolveu encarar a maternidade sozinha? Então, por que não optou pela inseminação artificial?”. Infelizmente, a sociedade ainda vê o gesto de gestar (em seu formato físico/biológico) como o único caminho possível para maternar. “Mas você está perdendo o melhor de ser mãe, o sentir o bebê crescendo em sua barriga.” “Poxa, você nunca saberá como é o prazer de amamentar, de sentir o seu bebezinho dependendo de você.” “Por que, então, você não adotou um bebezinho?”. “Você não vai viver tantas coisas com as suas filhas… isso é triste, né?”. Diante desse bombardeio de questionamentos, precisei aprender a me blindar e a responder.
Tenho aprendido que, para uma criança, há tantas “primeiras vezes”… É verdade que não vivenciei o momento em que minhas filhas deram os primeiros passos, falaram as primeiras palavras, experimentaram os primeiros alimentos; mas, neste um ano de convivência, nós vivemos tantas outras “primeiras vezes”! Foi comigo que elas perderam os primeiros dentinhos, foram pela primeira vez ao circo, ao cinema; fui eu que vi os olhinhos brilharem ante a expectativa do novo. Comigo, elas estão descobrindo novos sabores, lugares, sensações; estão descobrindo o mundo e me fazendo reaprender a olhar a vida sob uma outra perspectiva.
Nesse processo de embate com a sociedade também vi pessoas “próximas” se afastarem, perdi amigos, deixei de ser convidada para eventos, saídas noturnas e encontros, passei a ser “mãe” e, subitamente, todas as demais identidades da mulher foram apagadas. A sociedade insiste em colocar a mulher-mãe neste local de abdicação; para se exercer a maternidade com excelência é preciso renunciar aos prazeres da vida social. A conciliação de papéis é vista como algo impossível, a mãe que se diverte é irresponsável, negligente; e assim, sutilmente, deixa-se de ser mulher e torna-se “apenas” mãe. Este é um fator (entre outros) responsável pela depressão pós-adoção que acomete algumas mulheres, antes livres e independentes, de repente elas se veem isoladas e solitárias no desempenho da maternagem.
Fato é que muitos dos aspectos aqui levantados são inerentes às mães biológicas, porém o meu intuito é observar como esses sentidos/sentimentos estão também ligados à maternagem da mãe adotiva.
A chegada de um/a filho/a não equivale ao nascimento/surgimento de uma mãe. Então, voltamos a pergunta que dá título a este relato: quando nasce uma mãe? A maternidade é construída na relação. Por mais que uma mulher tenha o desejo latente de ter um/a filho/a, isso não faz dela uma mãe. No contato diário, através das trocas, das frustrações, dos medos, dos erros e acertos, das alegrias, dos ensinamentos e aprendizagens mútuas, é nesse contexto do cotidiano que a mãe é forjada.
A prática diária de formação da maternagem nos mostra que são muitos os desafios, os receios, as dúvidas, os julgamentos, os medos… diante deste cenário, o antídoto para os obstáculos é o amor (constatação “piegas” para alguns), mas ele nos faz querer superar as adversidades que vão surgindo no caminho. No mundo da adoção costumamos repetir que a vinculação entre pais e filhos é o elemento primordial para a formação da nova família. O vínculo é o laço, aquele elemento que ata, liga, une. Na adoção, a vinculação acontece à medida que o medo dá lugar à confiança e esta cria o espaço necessário para o nascimento e consolidação do amor.
O amor é poético, considerado o mais nobre dos sentimentos; ele é “paciente, bondoso, tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta”. Mas o amor também é emoção caprichosa, surge em seu próprio tempo, por formas e meios que só a ele cabe definir. Pode chegar rápido como um relâmpago ou vagaroso como uma volta da terra em torno do sol.
Os últimos meses foram de um turbilhão de emoções. Assim como numa montanha russa, vivemos momentos de altos e baixos. Eu sei que esta jornada é longa e desafiadora, mas tenho aprendido a me alegrar com o processo. Hoje temos uma família ainda mais feliz, animada, barulhenta e plena de amor. Essa construção diária não seria possível sem a presença em tempo integral da minha irmã, minha rede de apoio, minha parceira na aventura da maternagem, a mamãe-titia preferida das meninas. Vivo uma nova identidade em construção: mãe. Em dezembro, como se fosse um presente de Natal, eu recebi as novas Certidões de Nascimento das meninas, onde constam que Taiane e Rebeca são filhas de Margarete e carregam os sobrenomes Nascimento dos Santos. Agora o papel oficializa o que já era real desde aquele telefonema de uma manhã de fevereiro pós-Carnaval.
Hoje sou só gratidão pela honra que me foi concedida de me tornar mãe de duas crianças maravilhosas que me fazem mais feliz, meninas que fizeram nascer em mim a mãe. Tornou-se impossível imaginar a minha vida sem elas, isso é ser mãe.
Nota
[1] Essas reflexões nascem a partir da minha experiência enquanto mulher cis, preta, nordestina, mãe solo, através da adoção, de duas lindas meninas negras.
Sobre a autora
Margarete Nascimento dos Santos, Mulher. Preta. Nordestina. Mãe pela via da adoção. Doutora em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense. Professora no Curso de Letras da Universidade do Estado da Bahia. Pesquisa Literatura Negra do Caribe Francófono e diáspora. Acredita na Educação como caminho para a transformação social e política.
