Neste último post do ano, confira a retrospectiva de 2025 da BVPS e algumas novidades que vêm por aí. Também deixamos de presente para nosso público leitor o e-book Autóctone Aquino, um ensaio inédito de Raul Antelo que temos a alegria e a honra de publicar na BVPS Coleção.
Agradecemos a companhia de todas e todos ao longo deste intenso ano. Voltaremos em 2 de março, com muitas novidades!
Retrospectiva 2025
Quando chegamos ao nosso milésimo post, no fim de 2024, destacamos que um dos propósitos da BVPS é menos o de “divulgar” resultados de pesquisas acadêmicas e mais o de estabelecer a “comunicação” entre as pesquisas acadêmicas e um público mais amplo. O leitor e a leitora poderiam dizer que a divulgação não deixa de ser também uma comunicação, visto que pressupõe a interlocução entre alter e ego. No entanto, trata-se de formas distintas de conceber a relação comunicativa. A divulgação pressupõe uma relação entre emissor e receptor menos contingente e mais hierárquica, em que determinado conteúdo comunicativo é colocado à disposição de um público mais amplo. Enfatizar a dimensão comunicativa, por outro lado, traz ao primeiro plano a existência de um hiato entre emissor e receptor e o fato de que a interpretação, por parte do receptor, se realiza de maneira ativa e contingente, exigindo que alter e ego negociem seus enunciados de modo a se entenderem mutuamente.
A ênfase na dimensão contingente da comunicação pressupõe um modelo de interação mais horizontal, em que os resultados da pesquisa são tratados menos como pontos de chegada e mais como etapas no processo de formulação de novos problemas. Se toda boa pesquisa parte de boas perguntas, colocar a pesquisa em um plano mais acessível a outros públicos pode adensar o debate sobre o que foi tratado e multiplicar as indagações, possibilitando desdobramentos imprevistos e prenhes de novas perspectivas.
Essa diferenciação – entre “divulgação” e “comunicação pública” –, embora sutil, foi fundamental para o movimento realizado pela BVPS no ano de 2025. Para retomar Gregory Bateson, foi uma diferença que fez a diferença e aprofundou a forma como realizamos nossas seleções. Não por acaso, em fevereiro deste ano, começamos a publicar os folhetins que vão compor o Caderno 2 de O grande relógio: a que horas o mundo recomeça, de Silviano Santiago. Trata-se de um estudo sobre Machado de Assis e Marcel Proust, em que Silviano busca flagrar o surgimento da moderna narrativa de introspecção. Mais afeito à leitura das diferenças do que das influências, um dos críticos e ficcionistas mais inventivos de nosso tempo chama a atenção para o modo como Machado, negociando com pressupostos formais europeus, funda no Brasil uma narrativa de introspecção diversa da matriz europeia. O movimento de Machado, porém, é complementado pelo movimento de leitura de Santiago, que se constitui como sujeito no presente a partir da negociação com Machado. A essas negociações, soma-se a presença do público leitor que, ao interagir com este projeto em andamento, confere mais uma volta a esse espiral hermenêutico.
Fica nítido nesta série de folhetins um pressuposto ao qual também a BVPS adere: a concepção de que não há identidade que se mantenha no tempo, que se mova inalterada com o passar dos anos. Para lembrar Niklas Luhmann, autor de que gostamos muito, a identidade é um instrumento para ligar o tempo ao articular passado, presente e futuro. É pela relativa estabilidade das observações realizadas sobre o mundo, informadas por observações pretéritas, que emerge a noção de identidade. Mas como a estabilidade é apenas relativa e atrelada ao fluxo da vida, há sempre contingências e consequências não previstas das escolhas realizadas. No presente, surgem situações que demandam novas formas de seleção, alterando não só o horizonte visado, mas também o conjunto de escolhas passadas que informará as escolhas futuras. Contudo, como pondera Klaus Eder, há mudanças que não necessariamente apontam para aberturas e, ao lado do aprendizado, existe também o bloqueio. Ou seja, há reorganizações no modo de autocompreensão que operam no sentido de ligar o futuro a um passado reificado, garantindo no presente a estabilização de uma identidade avessa a mudanças.
Atentos aos diversos processos de bloqueio, buscamos ser contemporâneos de nosso próprio tempo. Contemporâneos na acepção de Giorgio Agamben, isto é, capazes, no presente, de nos desconectar de nosso tempo para vislumbrar tanto o seu escuro quanto as luzes que se distanciam infinitamente de nós – linhas de fuga que, embora possibilitem novos caminhos, permanecem opacas e portadoras de consequências que não podemos antecipar.
E, para tanto, vocês, leitores e leitoras, são fundamentais. Isso porque não pressupomos que a produção de diferenças seja algo dado, ou que indivíduos sejam únicos e suas vontades sejam capazes, por si sós, de abrir novas veredas. Ao contrário, apostamos na interação – mais particularmente, na organização da comunicação – de modo que os conteúdos comunicativos possam ser criticados e, assim, permitir o surgimento de novos enunciados e pontos de vista. Não tratamos a crítica como algo inato a determinados indivíduos, mas como propriedade emergente de um procedimento interativo. Nesse sentido, nossas redes estão abertas para comentários e a BVPS segue aberta a submissões de ensaios inéditos, balanços bibliográficos, entrevistas, simpósios, homenagens, traduções e dossiês.
Mas, além dessa comunicação que se dá de modo mais indireto, com diálogos espaçados entre autores e leitores, esse espaço também funciona como mediador dos encontros face a face entre autores e público. E não passa despercebido, entre aqueles que frequentam nossos canais no WhatsApp, no Instagram e que assinam nossa lista de e-mails, o volume de eventos divulgados. Assim, a BVPS também cumpre um papel de formadora de um repertório de interação presencial. Esse movimento foi radicalizado no experimento realizado em maio deste ano com a série especial “A outra crise do liberalismo? À margem da história da República (1924)”, organizada por Christian Lynch, André Botelho e Rennan Pimentel. Nela foram publicados 13 ensaios de autores que participaram do debate no seminário de mesmo título, realizado na Casa de Rui Barbosa naquele mês. O experimento fomentou a discussão extremamente qualificada travada durante o seminário.
Também nesse sentido operou o “Simpósio BVPS + SBS: A sociologia e o contemporâneo”, publicado de maio até 14 de julho, véspera do 22º Congresso Brasileiro de Sociologia. O simpósio, organizado por Maurício Hoelz (editor responsável pela BVPS) e Edna Castro (presidente da SBS), interpelou 24 autoras e autores com perguntas sobre a capacidade da sociologia em lidar com esse presente marcado por crises ambientais, políticas e sociais, gerando um fluxo de indagações que reverberou nos debates do Congresso. Meses depois, na ANPOCS, autores e autoras que responderam ao simpósio integraram o Colóquio SBS “A Sociologia e o Contemporâneo”, que teve duas ricas sessões de debates.
A formação de repertórios não implica, porém, a formação de consensos. O mérito dessas duas ações esteve, assim, em possibilitar a formulação de novas perguntas. O adensamento da conversa, mediado pela BVPS, permitiu estabelecer um terreno comum sobre o qual a troca pôde ocorrer de maneira mais produtiva.
E é também por esse caminho que se dá o esforço de publicação da série Autorais. Se a identidade se dá no tempo, articulando passado, presente e futuro, o repertório de formulações pretéritas é de suma importância: estabelece o terreno sobre o qual realizamos nossas escolhas no presente. Com o objetivo de reunir textos pouco conhecidos, fora de circulação ou inéditos de autores centrais das ciências sociais e da crítica da cultura brasileiras, buscamos oferecer novos pontos de partida para formulações contemporâneas. Assim, neste ano demos continuidade à publicação dos textos de Wanderley Guilherme dos Santos, iniciada ano passado, e publicamos uma Autorais com Maria Victoria Benevides e com Wander Melo Miranda, dois nomes centrais da sociologia e das letras, respectivamente.
Acreditamos, portanto, que acúmulo e variação são indissociáveis. Por isso valorizamos tanto as resenhas – foram 24 ao longo do ano – quanto a coluna Primeiros Escritos, inaugurada em 2022 e que contou, neste ano, com 11 textos de estudantes de pós-graduação.
As colunas são justamente esse espaço mais aberto à experimentação. Em 2025, acompanhamos mensalmente a continuidade da coluna de Renato Ortiz e a nova coluna de Alcida Rita Ramos na BVPS. Mais coladas ao cotidiano da escrita, as colunas garantem maior margem de variação e de interpelação da autoria pelo presente. Não à toa, neste ano Alcida intitulou sua coluna Modulações, evocando movimentos ondulatórios, passagens e variações em uma aposta na transformação da inspiração em reflexão.
E, nesse movimento de acúmulo e variação, surgem novas autodescrições que orientam escolhas futuras. A Série Nordeste, que teve sua primeira floração em 2023, pluralizou-se e se tornou a Série Nordestes. Os leitores e as leitoras puderam se deparar com os textos de Onildo Correa sobre uma família sertaneja do oeste baiano, com as crônicas de Mário de Andrade publicadas em sua coluna “O Turista Aprendiz” no Diário Nacional, com a coluna de Lilia Schwarcz “Nordestes imagens: igualdade e desigualdades” e com textos de colaboradores especiais abordando o presente da região, suas transformações políticas e suas linguagens visuais e literárias.
Além dessas ligações e parcerias, em março e junho deste ano a BVPS foi ocupada por duas iniciativas especiais. Em março, tivemos 35 posts na terceira edição da Ocupação Mulheres, organizada por Caroline Tresoldi, Eurídice Figueiredo e Lia Zanotta Machado, e, em junho, 13 textos na Ocupação Orgulho LGBTQIAPN+, organizada por Miguel Cunha. Foram iniciativas desencadeadas pelas celebrações do Dia Internacional da Mulher (08/03) e do Dia Internacional do Orgulho LGBTQIAPN+ (28/06), que nos forçaram, no presente, a refletir sobre os caminhos percorridos e a vislumbrar sendas possíveis para seguir adiante. Não se trata de abrir espaço apenas nesses momentos – o compromisso com a expansão da igualdade perpassa grande parte dos textos que temos publicado –, mas de aproveitar essas datas para intensificar debates plurais sobre questões centrais de nossa contemporaneidade, conformando novos repertórios de autocompreensão do mundo e orientando nossas interações de modo mais aberto e horizontal.
Embora a dimensão semântica da vida social seja fundamental para a maneira como compreendemos nosso lugar no mundo e orientamos nossas ações, essas representações necessitam de portadores sociais que as coloquem em movimento. E, neste ano, perdemos figuras importantes da vida cultural brasileira que trabalharam longamente pela expansão do reconhecimento e por uma sociedade mais igualitária. A elas, procuramos render homenagens com textos delas ou sobre elas.
Arquivo, livros, resenhas, comentários, seminários, livros organizados a partir de seminários… A BVPS parece configurar-se como uma grande espiral em que o que enlaça um momento ao outro é a comunicação – ou, em termos mais prosaicos, a conversa. E são vocês, leitores, leitoras e contribuintes da BVPS, que nos conferem esse lugar de mediação, de grande sala cercada por livros e ocupada por pessoas ávidas por entabular as mais diversas conversas. E, nesse ambiente de debates, não poderia faltar um bom banquete. Como aprendemos com a série especial A mesa dos mineiros narra Minas, curada por José Newton Coelho Meneses, publicada de maio a outubro, a culinária também é linguagem e expressão de interpretações próprias sobre o mundo. Abertos ao diálogo e afeitos ao movimento, também publicamos neste ano um glossário sobre Silviano Santiago, organizado por Mario Cámara. Postados de maio a setembro, os verbetes buscaram flagrar, na amplitude e complexidade de sua obra, as lógicas que operam em sua maquinaria conceitual – não para disciplinar Silviano, mas para impulsionar novas leituras, interlocuções e possibilidades de crítica.
Embora assumindo esse papel de sala, sabemos que aqueles que nos visitam não saem daqui descansados. O conforto de nossos assentos é apenas relativo, e gostamos de ver quando os convivas se levantam e se movimentam pelo salão, desconcertados por espaços e conversas que desestabilizam certezas arraigadas. Mexendo e reorganizando relações entre autores e obras, obras e público, público e autores, gostamos de mediar aproximações e distanciamentos. Passado e futuro são reavaliados a partir do presente, como aparece explicitamente na nossa nova série, iniciada em outubro e intitulada Sociológicas, que tem como primeiro convidado Adalberto Cardoso. A partir de uma perspectiva diferencialmente sociológica, a série pergunta: o que tem a sociologia a dizer sobre o contemporâneo, sobre as crises e incertezas que tecem a trama do social e, nela, das subjetividades de indivíduos e grupos no Brasil e no mundo?
O que nos intriga e instiga são os vários movimentos do “e”: que ora de “&” se torna “e”, ora de “e” se torna “&”. Não à toa, começamos a publicar a primeira floração da série Economia & Sociedade, organizada por Henrique Braga, que busca aproximar mais uma vez esses dois termos que, ao longo das últimas décadas, se distanciaram no âmbito da economia. E são essas aproximações e distanciamentos que estão em jogo também no simpósio que saiu nas últimas semanas do ano. Lembrando os 100 anos de Raymundo Faoro, diversos autores e autoras mobilizaram sua obra não só para contextualizá-la em seu tempo, mas para problematizar sua atualidade na compreensão da contemporaneidade brasileira.
Como se pode ver, foram muitas ações e atividades realizadas durante o ano. E isso não seria possível também sem editoras e editores. Cumprindo a missão de formação de editores em ciências sociais que a BVPS assumiu desde o início, novos estudantes de pós-graduação se juntaram à nossa equipe editorial: Alexandre de Bastos Pereira, nosso novo editor executivo assistente, e João Candido Stringari, Maria Fernanda Argileu e Nichollas Paradelo Capote. Eles se somam a outros estudantes que participam voluntariamente de um trabalho pioneiro em comunicação pública da sociologia e das demais áreas de nossa atuação.
Convidamos o público leitor a se estender nessa conversa ao longo de 2026. São muitas as novidades que vêm por aí. Para mencionar algumas delas, teremos novas edições da série Autorais, com nomes como Laura de Mello e Souza, Luiz Eduardo Soares, José Sérgio Leite Lopes, Antonio Sérgio Guimarães (com participação de Nadya Araujo Guimarães), entre outros; o simpósio Capitalismo e Autoritarismo, organizado por Fabrício Maciel e Maurício Hoelz; a série A sociologia digital e suas interfaces, curada por Richard Miskolci; uma série especial em torno dos 50 anos de 26 poetas hoje, também como homenagem à amiga e grande inspiração Heloisa Teixeira, que nos deixou este ano; uma série sobre Currículo e Pensamento Social, organizada por Arilda Arboleya; uma série sobre comparações na BVPS Inovações, organizada por Karim Helayel e Maurício Hoelz; uma nova floração da série Modos de Narrar a Sociologia Brasileira, em parceria com a SBS; uma ação em torno do centenário de Octávio Ianni; uma homenagem a Pier Paolo Pasolini, que estenderá a conversa iniciada no díptico para Pasolini, de José Gatti e Gustavo Silveira Ribeiro publicado agora em novembro; uma série com manuscritos do arquivo de Florestan Fernandes, organizada por Diogo Valença de Azevedo Costa e muito, muito mais. Em nossa coleção de e-books, reuniremos textos de Wanderley Guilherme dos Santos e Maria Victoria Benevides, bem como materiais das séries Mesa Mineira e do Glossário Silviano Santiago – este último já em clima de comemoração pelos 90 anos do autor.
Até nosso retorno, em março, fiquem à vontade: mexam nos arquivos, abram gavetas, circulem, entrem em conversas imprevistas. Há muitas preciosidades em nossas matérias, algumas delas republicadas no site Outras Palavras, nosso parceiro desde 2023. Nosso menu, logo no início da página principal, está organizado para ajudar você a navegar pelas ações: ali é possível encontrar textos novos e antigos, além de outras iniciativas que compõem a trajetória da BVPS ao longo de mais de oito anos de existência.
Mas, como gostamos de deixar um presente de final de ano para nossos leitores e leitoras, trazemos neste post um novo e-book do selo BVPS Coleção: Autóctone Aquino, de Raul Antelo. É um ensaio inédito e original sobre a trajetória crítica de Flávio de Aquino e sua reivindicação de uma arte autóctone. Este novo e-book se junta aos outros cinco publicados este ano: Mulheres, diferenças, desigualdades: ocupação 8M BVPS, coletânea organizada por Caroline Tresoldi; Ensaios de sociologia política, de Brasilio Sallum Jr.; Essa tal classe média, organizado por Celi Scalon, André Botelho e João Mello; A sociedade dos textos dois, coletânea organizada por André Botelho e Alexandre de Bastos Pereira; e Quatro Pontos Cardeais: Weber, Adorno, Gramsci, Marx, de Gabriel Cohn.
O repertório é rico e variado. Aproveitem!
Boas festas e feliz 2026!
Clique aqui para baixar gratuitamente o e-book de Raul Antelo. Outros e-books podem ser acessados aqui.
